sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A SAGA DOS POÇOS ARTESIANOS NA REFINARIA GABRIEL PASSOS EM MINAS GERAIS Paulo Afonso da Mata Machado Dedicatória Dedico esta obra: ao meu amigo Antônio Sérgio Marx Gonzaga, que acompanhou o trabalho pela implantação dos poços artesianos desde a fase de luta; e aos amigos Claudius Paulino, Elza Kallas, Nilson de Moura Gondim e Ricardo Cestari, sem cuja participação talvez a obra não tivesse sido concluída. Minhas homenagens especiais a Juscelino Kubitschek de Oliveira, ex-presidente da República, citado em duas oportunidades neste trabalho. Conteúdo Prefácio Uma explicação necessária 1 - De volta à Regap 2 - Corrigindo um projeto 3 - A água potável da Regap 4 - Assumo a coordenação da substituição da rede de água potável 5 – Mudança de projetista 6 - Análises do valor 7 - Compostos organoclorados 8 - Começo a campanha pelos poços artesianos 9 - Texto para toda a refinaria 10 - O boletim do Sindipetro 11 - Aparece o Antônio Sérgio 12 - Um poço da Copasa em terreno da Petrobras 13 - O teste de vazão 14 - Microcystis aeruginosa na represa de Ibirité 15 - Mudança de setor 16 - Vazamento na estação de tratamento de água 17 - Analisando a água do poço perfurado pela Copasa 18 – “Já estamos atrasados.” 19 - “Ah! Se eu soubesse!” 20 - Os trabalhos de terraplanagem 21 - Um golpe de sorte 22 - Tocando vacas e a eleição municipal 23 - A contratação da geofísica 24 - Os trabalhos de geofísica 25 - O acesso ao novo poço 26 - O fracasso da geofísica 27 - O poço que o Antônio Sérgio locou 28 - Água pura 29 - O Repórter Regap 30 - O último poço 31 - A contratação do projeto executivo 32 - A aposta 33 - Não fui ao churrasco 34 - As bombas submersíveis 35 - A sondagem do terreno 36 - Voltando ao prédio administrativo 37 – Revendo o orçamento 38 - O PDV 39 - Salvando o empreendimento 40 – Contratação dos serviços de eletricidade 41 - A adutora 42 - Quebra de paradigma 43 - A catenária 44 - O furto da tampa do poço 45 - O sistema entra em operação 46 - O planejamento estratégico da refinaria 47 - Verificando vazamentos 48 - Considero concluído o novo sistema de água potável 49 - Um acidente de bicicleta 50 - Visitando a Fiat Automóveis 51 - A experiência da Fiat com reúso de água 52 – Proposta de reúso de água na Regap 53 - Descubro a causa de antigo problema da Regap 54 – Limpeza da bacia de aeração sul 55 – Onde há fumaça, há fogo 56 – “Perderam o poço 2!” 57 – Continua o problema da represa de Ibirité Prefácio Habent sua fata libeli – Terêncio – Os livros têm seus destinos, os seus fadários. Ao fluir, água corre. Se contida, mostra-se na forma do vaso que a recebeu. Se percorrer um plano, formará tantas figuras quantas vezes for impulsionada. Se gotejar: pinga, pinga, perfura... Atrelar a isto perseverança e uma motivação ímpar, que se fortaleceu com as dificuldades e situações que se apresentaram, entende-se a ambivalência do Autor ao longo de seu narrado. Os tempos e as pessoas mudam, a ambiência profissional toma feição de seu titular maior. Política atual – competição e qualidade – inserida abruptamente no mundo até então externo, deparamos fragilizado como um novato frente à voracidade do mercado e às astúcias de seus integrantes. Como proceder, como agir, por intuição, livros. Há normas e formas comerciais múltiplas, tudo é “lícito”. Vivíamos despreocupados com os finais de meses, éramos protegidos. Nos murais dos admitidos procura-se, hoje, os que podem ser abatidos. Despertados com algumas punições encontramo-nos frente a um pequeno “GAP” de abertura muito estreita, que impedirá à maioria passar ao amanhã. O relato do Autor inicia-se em épocas distantes, embora em curto e próximo passado. Permitia-se então posições pessoais, ranços, entusiasmos e fortes emoções, até as mais primárias. Em várias estações sofre o Autor o meio, deixando, com isso, aflorar sentimentos e astúcia. Por fim alcança o presente, época que não se dá espaço a recente “Necessitas caret lege” – a necessidade não tem lei, i.e., diante de uma necessidade imperiosa cessam todas as leis. Na égide do atual tudo é previsível, proativo, orçado, estimado, avaliado e analisado prospectivamente. A realização é cronológica. O prazer de fazer foi colhido na prancheta e coroado em reunião, tudo são exercícios acadêmicos. Principalmente as relações humanas são profissionalmente adultas. Não há pai repressor nem crianças rebeldes. Fica claro e veloz quando o relato chega nesta fase, tudo anda, nada aparece, não há comentários, somente pontos em gráficos. A natureza não dá saltos, segundo Leibnitz. As emoções são vividas, segundo o povo. Como senti-la se tudo se tornou previsível? Nisto buscou o Autor, em lembranças familiares, o sabor do passado. Belas são as narrativas políticas, forma de sua ideologia, exemplos de conduta. Suas reminiscências escolares são belos cultos aos educadores. E ao quedar, vendo o filho afastar-se, percebe um indelével murmúrio às suas costas, “aguarda-me, antigo filho meu” sou seu amigo Sylvio. Non omnis moriar – Não passarei completamente. Horácio, autor deste verso, afirma que o espírito sobreviverá. Entretanto. A lista dos grandes problemas deste século inclui, entre outros, o aproveitamento dos recursos hídricos sem prejuízo do meio ambiente, a defesa das águas contra os agentes poluidores e a exigência de “indústrias limpas”. No Brasil, só agora se começa a discutir a regulamentação do uso das águas para consumo humano e industrial. Há muitos anos se fala de um plano nacional de saneamento, mas jamais deslanchado como um programa nacional. Minas registra cerca de 4 milhões de pessoas sem água tratada. Calcula-se que custa 2 bilhões e 500 milhões de reais a universalização dos serviços de água e esgoto em Minas Gerais. O Brasil dispõe de tecnologia de bom nível para o setor. O que falta? Certamente, entusiasmo, motivação, vontade política, interesse social, enfim coisas pequenas, singularmente humanas. Isto o Leitor encontrará a seguir através de um dos homens de Diógenes, de nome Paulo Afonso da Mata Machado, o Autor, filho de nossos queridos e estimados octogenários Doutor Sylvio e D. Thereza. Luiz Francisco Botti Uma explicação necessária Quando iniciei a luta pela implantação da captação de água subterrânea na Regap, percebi que estava vivendo momentos históricos para a refinaria. Diante disso, fiz algumas anotações do que vinha acontecendo, pretendendo, ao final, escrever um livro. As anotações eram feitas quase diariamente e, por isso, tinha às mãos um amplo material para transformar em uma pretensa obra literária. Quando fui comunicado de que não era mais o coordenador dos trabalhos, pensei que minha participação na obra estava terminada. Passei, então, a montar este trabalho e convidei meu colega Botti para escrever o prefácio. Percebi, no entanto, que eu não me separaria do projeto que havia iniciado. Quando fui convidado a solucionar a questão dos cabos da rede elétrica, mergulhei novamente no projeto, tendo, inclusive, enfrentado uma comissão de inquérito, numa mal disfarçada medida objetivando punição e posterior demissão. Com minha saída brusca da Petrobras, arquivei a ideia de contar a história dos poços artesianos. Recentemente, já aposentado, lembrei-me desse projeto e resolvi reescrever a história, mantendo o prefácio escrito há dezesseis anos. É interessante que, passado tanto tempo, ao reescrever o livro, as lembranças se mostraram tão vivas na memória, que cheguei a me lembrar de diálogos inteiros que mantive. Quanto à minha proposta para reúso do efluente da Regap, foi totalmente modificada, já que não tinha os dados da proposta inicial. Boa leitura para todos! Belo Horizonte, 31 de outubro de 2014. Paulo Afonso da Mata Machado 1 - De volta à Regap Devido a uma tuberculose contraída na década de 1930, meu pai se aposentou por invalidez no serviço público estadual. Posteriormente, já curado e formado em medicina, ele foi chamado para lecionar na Faculdade de Medicina, em substituição ao professor de Tisiologia, que havia se licenciado. Ele entendeu que não era moral continuar aposentado por invalidez no serviço público estadual, estando na ativa no serviço público federal e requereu o cancelamento da aposentadoria. No dia 20 de março de 1990, deixei a Universidade de Alfenas, onde atuava como professor de engenharia e tomei o ônibus para Belo Horizonte. Ia retomar meu lugar na Petrobras, beneficiado por um processo de anistia política. No caminho, ia fazendo meus planos. Estava informado de que os anistiados políticos que trabalhavam na Petrobras tinham aposentadoria do Governo Federal. Isso era legal, mas, no meu caso, não era, certamente, moral, visto que minha demissão, em 31 de janeiro de 1975, ocorrera oito meses após minha admissão. Por isso, entendi que não deveria requerer minha aposentadoria, o que facilitaria meus planos de vir a ser um engenheiro como outro qualquer, sem qualquer conotação político-partidária. Saltei do ônibus nas proximidades da Refinaria Gabriel Passos (Regap) e fui caminhando até lá. Minha recepção foi melhor do que eu esperava. Os novos colegas da Sessão de Pessoal me receberam muito bem e me indicaram onde deveria trabalhar: a Divisão Técnica, a mesma em que eu trabalhara até a demissão. Na Divisão Técnica, fui recebido pelo Éderson, seu novo chefe, que me indicou onde passaria a trabalhar: a Coordenação de Projetos e Empreendimentos. Pensando que eu também estivesse aposentado, alertou-me: - Se alguém virar o rosto para você, não ligue. Há quem ache um absurdo os anistiados políticos receberem um dinheiro que os demais colegas não recebem. Durante todo o tempo em que estive na Regap, não consegui convencer ninguém de que não estivesse aposentado. Pouco me interessava se me acreditassem ou não, pois o meu propósito era o de exercer as atividades de engenheiro da Petrobras, que haviam sido interrompidas quinze anos antes. O único problema era que, por vezes, os colegas me pediam dinheiro emprestado... 2 - Corrigindo um projeto A Coordenação de Projetos e de Empreendimentos era um grupo encarregado de examinar todos os pedidos de melhoria da refinaria e selecionar aqueles que deveriam ser realizados. Era um trabalho de grande importância, na medida em que afetava os diversos setores da Regap. A prioridade eram os projetos que somente poderiam ser executados com a unidade parada. Esses eram todos remetidos para execução. Quanto aos demais, analisava-se caso a caso. Embora a coordenação fizesse parte da Divisão Técnica, suas atividades eram mais burocráticas do que técnicas. Caiu em minhas mãos a análise de um projeto “de parada” e, portanto, já previamente aprovado: tratava-se da parte hidráulica de um projeto de aproveitamento do enxofre retirado do petróleo. Como era um assunto totalmente afeto a uma das disciplinas que eu lecionara na Faculdade de Engenharia Civil de Alfenas–Hidráulica Geral – resolvi analisar o projeto em detalhes. Li o relatório feito pelo Engenheiro Amadeu, detalhando o cálculo dos diâmetros das tubulações e da potência das bombas. Foi, então, que verifiquei um erro. As tubulações seriam em “paralelo”, ou seja, o líquido se distribuiria igualmente entre elas. Assim, ao invés de somar as perdas de carga obtidas em cada uma, deveria ser considerada apenas a que ocorreria em uma delas. Isso diminuiria em muito a potência necessária às bombas. Comentei o erro com o chefe da coordenação. Este me apresentou ao José, chefe do Setor de Projetos. Como não havia nenhum engenheiro de hidráulica no setor, ambos sugeriram que eu conversasse com o chefe do Amadeu. Respondi, então: - Por que não conversar diretamente com o Amadeu? Foi o que fiz. Sentamo-nos ele e eu com livros que eu usava na faculdade e, após longa análise, ele percebeu que, de fato, havia-se equivocado. Quando, mais tarde, ele foi à minha sala agradecer, entendi por que me aconselharam a conversar com seu chefe. Tratava-se de uma cultura que, infelizmente, existia à época... A correção do projeto me angariou prestígio como engenheiro de hidráulica e um convite para participar de uma comissão que estava analisando um problema crucial: a situação do abastecimento de água potável na Regap. 3 - A água potável da Regap Havia um grupo que jogava uma “pelada” à hora do almoço e eu consegui entrar para esse grupo. Como tínhamos apenas uma hora de almoço, jogávamos por meia hora, tomávamos banho e íamos almoçar, chegando, quase sempre, poucos minutos antes de o restaurante fechar. A comissão criada para analisar a questão da água potável era multissetorial, pois o problema atingia a todos, principalmente às equipes de operação e de manutenção, visto que fazia parte de acordo sindical que, antes de deixarem a refinaria, eles deveriam tomar banho. Entretanto, esse banho estava sendo impossível, porque a água acabava na Regap quando os chuveiros eram abertos simultaneamente. Havia diversas propostas para solucionar a questão, como, por exemplo, diminuir o consumo de água potável, fornecendo água mineral aos funcionários, como ocorrera no passado. Essa e outras propostas partiam do seguinte princípio: a água estava acabando por excesso de demanda. Houve uma proposta, no entanto, que me chamou a atenção, pois não cuidava de diminuir a demanda de água, mas de aumentar a oferta: informava que havia trechos da rede que estavam com incrustações e que provocavam uma sensível redução na vazão de água. Tais trechos deveriam, então, ser substituídos por PVC. Entre os colegas da “pelada”, estava o Roberto, do Setor de Serviços Gerais. Quando fomos almoçar, falei com ele sobre essa proposta e ele me disse que havia feito uma solicitação para que toda a rede de água potável da refinaria fosse substituída. Após o almoço, levou-me a seu setor, onde haviam sido tiradas várias fotos das tubulações removidas. - Toda a rede está nessa situação – disse-me ele. – Como vai passar água num tubo assim? E mostrou-me um pedaço de tubo que havia sido substituído, em que o diâmetro útil havia sido reduzido à quarta parte. Encontrei em meu setor sua solicitação para modificar toda a rede de água potável da Regap,mostrei-a ao meu coordenador e, juntos, apresentamo-la na reunião seguinte da comissão. Daí para frente, tomaria a meu cargo as questões ligadas à água potável da Regap. 4 - Assumo a coordenação da substituição da rede de água potável A solicitação de substituição da rede de água potável da Regap por PVC foi aprovada pela comissão e, em seguida, encaminhada ao Setor de Projetos. Acontece que aquele setor se deparava com diversas solicitações “de parada”, que precisavam ser solucionadas antes que cada unidade parasse e a solicitação de substituição da rede de água potável foi deixada de lado. Diante disso, resolvi tomar a meu cargo a solução do problema e pedi transferência para o Setor de Projetos. A transferência foi autorizada, mas deparei-me com uma questão: o setor era dividido em áreas, a saber: Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Engenharia de Tubulação e Engenharia de Instrumentação. A solicitação estava com a Engenharia de Tubulação e, como sou engenheiro civil, o projeto não ficaria a meu cargo. Por vários meses, a substituição da rede de água potável não avançou até que uma ocorrência possibilitou que eu pudesse dar andamento ao projeto. Uma solicitação pedia uma reforma do piso externo à Assessoria de Comunicação. Ocorre que, sob o piso que seria substituído, passava um trecho da rede de água potável da Regap. Procurei o José, chefe do setor, e lhe expliquei que, ao retirarmos o piso, deveríamos fazer a substituição daquele trecho da rede. Ele reconheceu que a ideia era válida e foi assim que surgiu a primeira liberação de serviço correspondente à substituição da rede de água potável na Regap. O projeto parou novamente, até que nova solicitação possibilitou seu andamento. Tratava-se da reforma do vestiário feminino. À época da inauguração da refinaria, o número de funcionárias que trabalhavam na refinaria era muito pequeno. Por isso, havia um vestiário único para elas. Com o tempo, foi aumentando o número de petroleiras e tornou-se necessária a ampliação do vestiário. O aumento do vestiário implicava aumento na vazão de alimentação de água. Conversando com o projetista Raimundo, esse me sugeriu fazer um novo ramal de alimentação de água. Com tubos novos, haveria menor perda de carga e, consequentemente, maior vazão. Concordei com ele e fui mais longe. O trecho a ser substituído deveria sair do anel de alimentação da refinaria. Assim, foi projetada a substituição de todo um ramal para alimentar o vestiário feminino. Ocorre que, durante as obras, surgiu um problema. Para substituir esse ramal, foi necessário interromper o fornecimento de água de um dos lados do anel. Como a rede estava bastante obstruída, o outro lado do anel não conseguiu alimentar o trecho antigo que abastecia o prédio de administração. Assim, faltou água nos banheiros, nos bebedouros, nas copas. Diante disso, o ramal de alimentação do vestiário feminino foi realizado com rapidez e teve, como consequência, a transferência para mim da coordenação da substituição da rede de água potável da refinaria. 5 –Mudança de projetista Foi-me comunicado que havia um vazamento na área industrial. Fui ver do que se tratava e verifiquei que era um trecho da tubulação de água potável. Falei com o Raimundo para preparar o projeto de substituição daquele trecho, pois seria o próximo a ser substituído (os dois primeiros haviam sido a tubulação de alimentação do prédio da Assessoria de Comunicação e a alimentação do vestiário feminino). Concluído o projeto, fiz a liberação de serviço e Flávio, o novo chefe do setor, após assiná-la, entendeu de priorizar a substituição da rede de água e determinou ao Geraldo, especialista em tubulação, que substituísse o Raimundo na execução do projeto. Eu disse ao projetista que não havia o que inventar. Os diâmetros das tubulações seriam os mesmos, mudando-se apenas de ferro fundido e ferro galvanizado para PVC. Entretanto, o projeto era mais complexo do que parecia. Como os trechos eram muito longos, quando fosse feita a substituição, seria necessário interromper um ramal muito grande e vários setores poderiam ficar sem água. Por isso, era necessário dividir os ramais, tornando o projeto mais complexo que uma simples substituição do material da rede. Além disso, como os envelopes elétricos e as tubulações subterrâneas são muitos, era preciso analisar os desenhos das diversas especialidades para verificar qualquer interferência com a nova rede de água potável. Geraldo passou a agir de forma muito cautelosa, ligando as novas tubulações às antigas, segundo ele para que, se houvesse qualquer problema com as tubulações novas, as antigas pudessem ser postas em funcionamento. Era uma medida que indicava falta de confiança no novo projeto. Isso criou um problema enorme com relação à acoplagem das redes, por serem de materiais diferentes. Foram previstos muitos adaptadores e nem sempre foi possível manter os diâmetros existentes. Dei, então, a seguinte orientação: que não reduzisse, em hipótese alguma, o diâmetro de uma tubulação e que, se o diâmetro fosse aumentado em algum trecho, deveria ser mantido em todo o trecho. Com isso, evitaríamos perdas de carga adicionais. O superintendente estava particularmente interessado no projeto e cobrou do setor a sua complementação. Ao saber que se estava interligando linha antiga com linha nova, determinou ao chefe do setor que isso não mais acontecesse. Adorei que a ordem tivesse vindo dele. Se eu tivesse dado essa ordem, certamente teria criado atritos desnecessários. 6 - Análises do valor O superintendente resolveu introduzir na refinaria uma ferramenta da qualidade total: a análise do valor. Fui fazer o curso de aplicação dessa ferramenta e o instrutor pediu um projeto para servir de modelo. Entendi que a substituição da rede de água potável da refinaria seria um excelente exemplo. Formou-se o grupo para fazer a análise dessa substituição e houve o consenso de que, considerando os valores, estávamos certos em fazer a substituição da rede. Outra análise do valor iria me fazer vislumbrar um grande problema da refinaria: sua captação de água. A Regap descartava seu rejeito na represa de Ibirité e, depois, captava a água da própria represa. Como seu rejeito contém altas dosagens de sais, a concentração salina na represa tendia a aumentar progressivamente, diminuindo um pouco apenas na época de chuvas. Naquele ano estava havendo uma estiagem mais longa e previa-se que as resinas encarregadas de remover a dureza da água tratada iriam ficar cada vez mais sobrecarregadas. Como a caldeira necessita de água com baixa dureza, era possível que a refinaria tivesse que parar se não fosse efetuada compra de água dessalinizada. O grupo de análise do valor, de que eu fazia parte, estava estudando as várias sugestões para solucionar o problema e eu propus mais uma: o uso de poços artesianos. Como ninguém entendia do assunto, fui incumbido de contatar uma empresa de perfuração de poços artesianos e convidar algum de seus técnicos para fazer uma palestra para nós. Peguei o catálogo telefônico e me deparei com o nome sugestivo de Hidropoços. Telefonei para lá, expus o problema e, dias depois, recebemos a visita do Fábio. Tratava-se de um geólogo e sua especialidade era a geofísica, ou seja, a verificação por meio da resistência elétrica verificada, se o subsolo continha fraturas com acumulação de água. Foram muitas as perguntas feitas e logo percebi que não estávamos diante de alguém querendo vender seus serviços, mas de um técnico altamente especializado que se comportava como um professor em sala de aula. Alguém perguntou: - Podemos ter certeza de que encontraremos água se for positivo o resultado da geofísica? - Certeza nenhuma. Somente saberemos se haverá água depois de perfurarmos o poço. - Teremos garantia de que o poço fornecerá água continuamente? - Nenhuma garantia. Pelo contrário, se retirarmos mais água que a recarga do lençol, o poço vai declinar progressivamente sua vazão. Não era preciso fazer mais perguntas. A ideia do poço artesiano estava descartada. 7 - Compostos organoclorados A participação na análise do valor da água desmineralizada me chamou a atenção para a captação de água da refinaria. Afinal, a água é captada onde a refinaria joga seu efluente. Se essa situação estava causando problemas para a água industrial, que diria para a água potável? Fiz uma visita à represa de Ibirité e constatei algo que me surpreendeu: como a lagoa recebia o esgoto “in natura” de toda a região de Ibirité, chegava à Regap com muito mau cheiro. Para que esse mau cheiro não atrapalhasse o trabalho dos operadores, passou-se a usar a pré-cloração, de modo a eliminar completamente o odor da água, o que tornava necessária uma alta dosagem de cloro. Veio-me à mente a aula de Tratamento de Esgotos Sanitários, em que o Prof. Newton explicava que o esgoto tratado não deveria ser clorado para não formar compostos organoclorados, altamente prejudiciais à saúde humana. A represa de Ibirité recebia esgotos sem qualquer tratamento e, por isso, o risco de formação de organoclorados era muito maior. Procurei a Comissão do Meio Ambiente e perguntei se era feita análise da água que consumíamos. Responderam-me que sim, mas que, para os compostos orgânicos, o padrão de potabilidade era medido em microgramas por litro (ou partes por bilhão) e os aparelhos da refinaria não tinham tanta precisão. Desse modo, estávamos consumindo água como se fosse água potável sem saber se realmente o era. Diante disso, decidi não mais tomar água da refinaria. Iria levar minha própria água. Uma colega que residia em Lafaiete trazia diariamente uma moringa contendo água de poço artesiano. Consegui que ela me cedesse diariamente parte da água que levava. Portanto, meu problema de água potável estava resolvido. Acontece que os colegas continuavam correndo risco. Resolvi, então, iniciar uma campanha para trocar a captação de água para consumo humano da represa de Ibirité para poços artesianos. 8 - Começo a campanha pelos poços artesianos Corria o ano de 1995. A ata da reunião da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (conhecida nacionalmente por CIPA) refletia os problemas que a água para consumo humano na Regap estava tendo. Havia quem dissesse que a água não matava a sede, por ter alta concentração de sais. Outros, no entanto, afirmavam exatamente o contrário: por conter maior quantidade de sais, a água dava sensação de saciedade e, por isso, a pessoa necessitava consumir menor quantidade de água para matar a sede. Lendo aquele texto, entendi ser o momento de começar a agir. Uma resposta formal e o mais técnica possível aproveitaria a polêmica para chamar atenção para a necessidade de substituição da captação de água da represa para poços artesianos. Escrevi um texto bem forte, não excluindo, inclusive, a possibilidade de contrairmos câncer por ingerirmos água contendo compostos resultantes da cloração da matéria orgânica em putrefação. Empolguei-me ao longo do texto e acrescentei que, se havia necessidade de uma concentração tão alta de cloro para oxidar a matéria orgânica vinda da represa, deveríamos usar não uma estação de tratamento de água, mas uma estação de tratamento de esgoto. É evidente que um trabalho dessa natureza, se divulgado para todos, colocaria em polvorosa a refinaria. Por isso, selecionei as pessoas a quem encaminharia o trabalho: o presidente e o vice-presidente da CIPA e meu chefe imediato. Desse modo, imprimi cópias e entreguei-as a cada um deles. Havia, ainda, alguém a quem eu queria entregar uma cópia: Dr. Julizar, o médico da refinaria. Coloquei a cópia no bolso e fui almoçar. No refeitório, encontrei o Dr. Silvano, médico contratado e fui almoçar com ele. Durante o almoço, entreguei-lhe a cópia a ser repassada ao Dr. Julizar, pedindo-lhe sigilo absoluto, pois a simples divulgação de que a água que era bebida sem restrições poderia causar câncer poderia gerar pânico na refinaria. Ao final da conversa, pedi-lhe que tentasse obter os resultados disponíveis para a água consumida pelos regapianos para que pudéssemos averiguar sobre os riscos que ela continha. Dr. Silvano saiu do almoço com uma ruga na testa. Mais tarde, Dr. Julizar me procurou demonstrando preocupação e disse ter pensado que eu tivesse pedido os resultados das análises para publicar no boletim do sindicato. Segundo ele, a água da Regap tinha análises mais criteriosas que a água distribuída pela Copasa. Percebi que ia ser difícil conseguir algo pelo Setor Médico, principalmente porque a especialidade do Dr. Julizar é a cardiologia, não a medicina sanitária. Já havia me decidido a mudar a estratégia, quando o encontrei. Sugeri, então, que ele bebesse um pouco de água diretamente do bebedouro. Ele concordou que a água tinha um gosto estranho. Dias depois, indo à copa tomar café, cruzei com Caio, o superintendente da refinaria. Achei que era a oportunidade para sugerir um estudo para a substituição do manancial de água para consumo humano da lagoa para poços artesianos. Caio, no entanto, mostrou-se cético: - Nossa água é melhor que a água da Copasa – disse ele. A frase era tão parecida com a do Dr. Julizar que entendi ser melhor mudar a estratégia. 9 - Texto para toda a refinaria Era preciso conscientizar toda a refinaria sobre a necessidade de mudança da água captada para uso humano. Em novo texto, iniciei dizendo que a água da Regap tinha defensores apaixonados e críticos contumazes. Os primeiros diziam que a água da Regap era superior à da Copasa e os outros a consideravam de péssima qualidade. Aos primeiros, eu chamava de zagueiros, função que, no futebol cabe aos que defendem seu time, destruindo as jogadas do outro time. Aos críticos contumazes, eu lembrava o ditado que dizia ser a laranja do quintal do vizinho mais doce que a laranja do nosso quintal. O texto não tinha por fim fazer crítica nem ao Caio nem ao Dr. Julizar. (Aliás, Dr. Julizar acabou se tornando um entusiasta da ideia dos poços artesianos.) O objetivo era chamar a atenção para um problema que, a meu ver, não poderia ser deixado em segundo plano. Antes de enviar o artigo, resolvi conversar com o Éderson, chefe da divisão da qual eu fazia parte. Levei comigo o Romero, desenhista que viera do Setor de Utilidades e que, por conhecer bem a estação de tratamento, não bebia água da Regap. No entanto, Éderson se mostrou arredio. Queimado mais esse cartucho, decidi divulgar para toda a refinaria o trabalho que havia escrito. À noite, recebi um telefonema do Cláudio, que fazia o acompanhamento das atividades do Setor de Utilidades. Ele me disse que havia lido o trabalho, mas tinha algumas observações a fazer. Considerava a água de qualidade e que, por isso, não precisava ser substituída. Argumentei que, se a ETA fosse tão eficiente, dispensaria a pré-cloração. Procurando dar um tom dramático à voz, perguntei se ele sabia que os compostos produzidos pela reação do cloro com a matéria orgânica em putrefação podem ser cancerígenos. Cláudio disse que os filtros de carvão ativado tinham exatamente essa função: eliminar os compostos formados pela reação do cloro com a matéria orgânica. Fiz, então, uma pergunta simples: qual seria a eficiência do carvão ativado: oitenta por cento, noventa por cento? Cem por cento era impossível. Ele tinha os dados da queda da eficiência dos filtros de carvão ativado com o uso, tanto que mandara trocá-los havia pouco tempo. Resolveu desviar a conversa para outro lado. - Ocorre que, enquanto bebermos água da lagoa, ninguém poderá nos acusar de a estarmos poluindo. Percebi que Cláudio não falava por si próprio e lhe disse: - Pretendo continuar lutando para fazer a captação de água para consumo humano de poços artesianos. Você é a favor ou contra? Ele pensou um pouco e respondeu: - Paulo, ponha um poço artesiano para mim! A conversa com Cláudio me animou a continuar na luta pela implantação dos poços artesianos para fornecimento de água para consumo humano. 10 - O boletim do Sindipetro Assumindo o governo após a revolução de 1930, Getúlio nomeou interventores para todos os estados, exceto para Minas Gerais, porque o governador Olegário Maciel havia participado ativamente da revolução. Após sua morte, as lideranças políticas mineiras levaram ao presidente uma lista com várias sugestões para a escolha do interventor em Minas Gerais. Ele examinou-a e concluiu: - Há lá o Benedito Valadares, que vocês se esqueceram de colocar na lista. Diariamente, quando descíamos do ônibus da refinaria, recebíamos um boletim do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro). No dia 23 de fevereiro de 1996, o boletim historiava a contaminação da represa de Ibirité e falava do cheiro da água e do excesso de sais. Propunha, então, as seguintes alternativas para a água potável da Regap: que fossem tratados os esgotos lançados na represa ou que se voltasse ao fornecimento de água mineral para bebida do público da refinaria. Entendi que era o momento adequado para utilizar o boletim do sindicato para veicular minha proposta de perfuração de poços artesianos. Enviei uma carta ao Sindipetro dizendo que o tratamento do esgoto não retiraria o sal da água e o fornecimento de água mineral para que todos bebessem teria um custo elevado. Muito mais econômico – disse no artigo – seria a perfuração de poços artesianos para a distribuição de água para consumo humano, incluindo banho. Passei, em seguida, a enumerar as vantagens econômicas e sanitárias da exploração de água do subsolo. O Sindipetro publicou a carta sem minha assinatura, como se fosse “contribuição de base”, nome dado aos artigos escritos por pessoa que não fazia parte da diretoria do sindicato. Entretanto, ninguém tinha dúvida da autoria da carta. Houve colega que me sugeriu que, ao publicar uma “carta anônima”, eu deveria antes disfarçar meu estilo. Ocorre que a carta não foi anônima, tanto que Flávio me trouxe um recado de que não fora bem recebida pelo superintendente. Entretanto, o artigo serviu para que, no futuro, a solução de poços artesianos passasse a ser lembrada como uma opção viável. 11 - Aparece o Antônio Sérgio 1995 foi um ano muito seco. A estiagem prolongada fez com que Belo Horizonte e cidades vizinhas ficassem muito sujas de poeira. Assistimos a uma grande deterioração da água da represa de Ibirité, com salinidade cada vez mais elevada. A situação ficou tão crítica, que se chegou a admitir parar o funcionamento da refinaria. O superintendente convocou um encontro dos chefes de divisão e de alguns chefes de setor para se decidir o que fazer. Flávio entendeu que eu poderia ser útil e me levou à reunião. Dentre as propostas apresentadas, havia a de se desviar o córrego Pintado, que passa no interior da Regap, para a estação de tratamento de água. A essa proposta, eu me opus veementemente, pois o canal recebia o efluente das fossas sépticas da área onde se localizavam as empreiteiras. A estação de tratamento de água da Regap não teria condições de tratar a água do canal. A segunda hipótese era a de contratar água da Copasa, construindo-se uma adutora diretamente da Fiat Automóveis, usando tubos de fibra de polietileno, que tem maior resistência que o PVC, pequena perda de carga e execução com menor período de tempo. Quem se opôs a essa medida foi o superintendente. Lembrou que estávamos no mês de julho e uma obra dessa natureza não ficaria pronta antes de dezembro, quando já teriam iniciado as chuvas. Portanto, uma medida emergencial cara como essa não seria apropriada. A terceira hipótese era a perfuração de poços artesianos. A ela se opôs o Lúcio, do Setor de Utilidades, dizendo que havia poços artesianos na refinaria, que foram abandonados porque a água continha manganês. O superintendente sugeriu, então, que se perfurasse um poço e se analisasse sua água. Caso fosse apropriada, os poços artesianos poderiam ser uma solução para problemas futuros de estiagem. Entendi que esse era o sinal verde de que eu precisava para iniciar a perfuração de poços artesianos. Perfurando o primeiro poço, se ele tivesse vazão suficiente, poderia ser usado para se obter água potável, visto que a duplicação das resinas catiônica e aniônica, em andamento, resolveria a questão do excesso de salinidade da água industrial. Saí da reunião providenciando a tomada de preços para a contratação da perfuração de um poço. Pelos custos que havia levantado, um poço artesiano custaria menos que o mínimo necessário a uma concorrência pública e, portanto, seria suficiente que eu chamasse três empresas e contratasse aquela que oferecesse o menor preço. Havia, no entanto, um problema. Onde perfurar o poço? Deixaria a critério das empresas a escolha do local? Quem me tirou a dúvida foi o Flávio: - Nós perfuramos um poço artesiano para uma horta comunitária e não achamos água. Chamamos um consultor, que indicou o local apropriado e obtivemos uma boa vazão. Por que você não chama esse consultor? Entrei em contato com o consultor, de nome Antônio Sérgio, que me disse não ser possível locar um poço da noite para o dia. Era preciso fazer um estudo da região e, antes, deveríamos assinar um contrato. Seu preço era de R$2.500,00 para a locação do poço e mais R$2.500,00 para acompanhar a perfuração. R$5.000,00 era um valor inferior ao mínimo necessário para tomada de preços, mas pensei que não seria aceito. Digitei o contrato e me surpreendi quando Flávio devolveu-o assinado. Entendi que a perfuração de um poço artesiano, pelo qual havia lutado tanto, passava agora a ser prioridade da Regap. 12 - Um poço da Copasa em terreno da Petrobras No segundo turno das eleições de 1994 para o governo de Minas, o candidato da oposição era o favorito, pois havia obtido 48% dos votos válidos no 1º turno. O governador tinha poucas semanas para reverter esse resultado. Para isso, convocou todos os secretários de estado, o presidente da Assembleia Legislativa e os presidentes das estatais para fazerem esforço no sentido de dar a vitória ao candidato da situação. Para isso, o bairro Cascata, no município de Ibirité, que não dispunha de distribuição de água tratada, foi contemplado com um poço artesiano, visto que a execução de uma adutora para abastecê-lo não ficaria pronta antes da eleição. Os geólogos da Copasa escolheram o local apropriado para a perfuração do poço: as proximidades da confluência do córrego das Palmeiras com um de seus afluentes. Não se preocuparam com a escritura do terreno, que pertencia à Petrobras, visto que o poço seria perfurado apenas para fins eleitorais. Antônio Sérgio estava pesquisando o melhor local para execução do poço para a Regap e descobriu um poço em terreno da Petrobras, perfurado pela Copasa, pelo qual aquela estatal não mais se interessava. Entretanto, conservava os dados do teste de vazão realizados pela Hidrorizonte, empresa perfuradora do poço: vazão de 19,8 m3/s para rebaixamento de nível de 36,35 m, sendo ótima a qualidade de água. Consultei a Assessoria Jurídica da Regap sobre o poço, mas esta não tinha nenhuma informação a respeito. Tratava-se, portanto, de um achado e levei a informação a meu chefe de divisão, mas este disse que o poço não poderia ser utilizado porque, segundo ele, se encontrava distante da área industrial. Eu não disse, mas pensei: - Não poderá ser usado para a área industrial, mas, com certeza, será usado para fornecer água potável. Continuando com as pesquisas, Antônio Sérgio me levou um mapa com a localização de sete poços no interior da Regap. Eram os que haviam sido recusados por conter manganês. 13 - O teste de vazão De posse do mapa com os poços artesianos perfurados na Regap, procurei sua localização, sendo nisso ajudado pelo Sebastião, que trabalhava no setor de Serviços Gerais e conhecia a Regap como a palma de sua mão. Ele mostrou-me que, dos sete poços perfurados, cinco se encontravam na área industrial e, portanto, não havia como utilizá-los. Quanto aos outros dois, estavam, um deles próximo ao córrego Pintado, e o outro, próximo à tubovia. Entendemos que o melhor seria realizarmos o teste de vazão no poço próximo ao córrego Pintado. Providenciei a tomada de preços para realizarmos o teste de vazão. Seria o seguinte o serviço a ser executado: a empresa bombearia o poço durante 24 horas ininterruptas, findas as quais, mediríamos a vazão e recolheríamos amostras para realizar o teste de qualidade da água. Por sugestão do Antônio Sérgio, convidei para apresentar propostas as empresas Sondaco, Hidropoços, Geosol e Hidrorizonte. Venceu a Hidropoços. Como os trabalhos de perfuração de poços são, muitas vezes, realizados na área rural, as empresas se descuidam, por vezes, da manutenção dos equipamentos. Foi o que ocorreu com a Hidropoços, que mandou para a Regap um caminhão com vazamento de óleo e os vigilantes não permitiram sua entrada. Somente no dia seguinte, com um caminhão mais novo, o teste pôde ser realizado. Outra situação curiosa: os empregados das empresas de perfuração de poços levam, em geral, um fogareiro, onde cozinham. Fiquei imaginando um fogareiro aceso com arroz, feijão, carne e batata e, ao redor, a inevitável presença de curiosos. Não sendo possível cozinhar no interior da Regap, seria preciso providenciar comida. Felizmente, o Márcio, que era responsável pelo refeitório, concordou em mandar comida para eles. Interessante é que o lanche fornecido no café da manhã foi o mesmo dos operadores: refrigerante, iogurte, sanduíche, laranja, chocolate. Os rapazes da Hidropoços adoraram e perguntaram quanto custava. Ao informar-lhes que era cortesia da casa, isso passou a ser um dos “casos” que passaram a contar. Ao final dos trabalhos, a vazão medida foi de 9 m3/s, menos da metade da vazão do poço perfurado pela Copasa. Quanto à qualidade da água, o Lúcio estava certo: deu concentração excessiva de manganês e, também, de ferro. A ideia de se utilizar água subterrânea para suprir a demanda industrial estava, em princípio, descartada. 14 - Microcystis aeruginosa na represa de Ibirité Quando saía para suas conquistas territoriais, Júlio César deixava sua mulher Pompeia muito solitária. Clódio, um admirador da esposa do imperador, certa noite entrou disfarçado no palácio procurando a imperatriz, mas acabou sendo descoberto e preso. Levado à presença do imperador, negou qualquer envolvimento com ela. César, então, deixou-o ir embora. Em seguida, fez sua esposa ir à sua presença e repudiou-a publicamente. Aos cortesãos estupefatos, teria dito: “Não basta à mulher de César ser honesta; é preciso parecer honesta”. Quando morreram dezenas de pacientes renais em Caruaru, no interior de Pernambuco, a “causas mortis” foi uma alga azul chamada Microcystis aeruginosa. Essa alga, que habita águas com alto índice de contaminação orgânica, elimina uma toxina – a microcistina – altamente nociva ao fígado humano. O atual padrão de potabilidade limita a 0,1 mg/L sua concentração máxima na água potável. Qual não foi nossa surpresa ao constatarmos que a Microcystis aeruginosa já havia feito residência na represa de Ibirité! Em uma inspeção de rotina à represa, foram recolhidas amostras suspeitas e a análise comprovou a presença da alga azul. A reação foi imediata: os bebedouros foram lacrados e a represa recebeu tratamento com sulfato de cobre, um eficiente algicida. A alga regrediu com o tratamento, mas voltou forte no verão. Preparei um texto contundente dizendo que, se a alga azul fosse debelada para sempre – do que eu duvidava -, o público da Regap não mais aceitaria beber água oriunda da represa, pois “não basta à mulher de César ser honesta; é preciso parecer honesta”. A água tratada na Regap poderia chegar a níveis espetaculares, mas sempre pairaria a dúvida sobre sua condição de potabilidade. Esses níveis espetaculares a que me referia eram, simplesmente, uma figura de retórica. Jamais acreditei que o tratamento da água da represa, do modo como era feito, poderia atingir níveis aceitáveis de potabilidade. Como muitos não sabiam da minha formação de engenheiro sanitarista, assinei o texto identificando-me como tal e enviei-o para a cúpula da Regap. A resposta não se fez esperar. O superintendente de produção publicou no órgão de divulgação da Regap – o Divulgando -, uma muito bem escrita nota dizendo que estavam sendo tomadas medidas para se tratar adequadamente a água da represa e, tão logo fossem eliminadas as algas, o sistema voltaria à normalidade. Ao ler o Divulgando, percebi que, enquanto o superintendente de produção estivesse na Regap, o projeto dos poços artesianos não decolaria. Mas ele estava para se aposentar. Era conveniente, portanto, esperar por isso. 15 - Mudança de setor Finalmente, recebi uma notícia boa: o projeto de substituição da rede de água potável estava concluído. Embora já tivéssemos instalado o AutoCAD, Geraldo preferiu desenhar todo o projeto a mão e, por isso, demorou mais tempo. De posse dos desenhos, fiz a requisição do material necessário e encaminhei a documentação para o Setor de Obras. Por essa época, percebi que, na chefia, havia pessoas que me olhavam de lado. Meu próprio chefe imediato não demonstrava simpatia por mim. Lembrei-me também do que me havia dito o Éderson quando retornei à Regap. Parte da aversão poderia ser porque julgassem que eu recebia, além do meu salário, uma aposentadoria do Governo Federal e uma parte por minha atuação decisiva em defesa dos poços artesianos. Entendi que, para obter ambiente mais saudável, duas medidas seriam necessárias, sendo a primeira, minha mudança de setor. Em outro local, certamente tais problemas cessariam. Queria aproveitar a transferência do local de trabalho para atuar no ramo de engenharia sanitária, particularmente com água. Assim, procurei o Leandro, responsável pela estação de tratamento de água da refinaria, e sugeri minha transferência para seu setor. Ele sugeriu, então, que eu me transferisse para o setor que fazia os projetos básicos ligados à água da refinaria. Foi assim que me transferi para o Setor de Acompanhamento de Processo, que realiza os projetos básicos da refinaria. Fiquei na área responsável pelo Setor de Utilidades, encarregado da estação de tratamento de água. Mais tarde, meditando sobre o assunto, concluí que foi essa mudança que me permitiu concluir a substituição da captação de água potável para poços artesianos. Havia ainda uma segunda medida que precisava ser tomada. Eu desejava ver até que ponto estava causando embaraços à refinaria. Os colegas também partilhariam dessa prevenção que eu estava observando na chefia? Para verificar isso, nada melhor que participar de uma eleição. As eleições para a renovação dos membros da Composição Interna de Prevenção de Acidentes se avizinhavam e meu setor novo, o setor antigo e um terceiro setor faziam parte do colegiado que elegeria um dos membros para a nova composição da CIPA. Registrei minha candidatura àquele órgão e comuniquei ao meu chefe antigo que era candidato, dizendo que esperava seu voto. Ele respondeu que já estava comprometido com outro candidato. A apuração dos votos constatou que fui eleito por expressiva maioria: 31 votos contra 9 do outro candidato. Essa eleição me animou: pelo menos entre os colegas eu tinha prestígio. 16 - Vazamento na estação de tratamento de água Em minha primeira visita à estação de tratamento de água (ETA), verifiquei um vazamento que estava ocorrendo. Uma das comportas de entrada dos filtros estava com defeito e deixava passar constantemente água clarificada pelo canal que recebia a água de lavagem dos filtros. Cláudio, agora colega de setor, informou-me que, para corrigir o vazamento, seria necessário parar a ETA. Como esta funcionava 24 horas por dia, isso não seria possível. Esse seria o meu primeiro projeto no setor. Entretanto, não tive oportunidade de executá-lo, pois os acontecimentos me levaram para outra atividade. 17 -Analisando a água do poço perfurado pela Copasa Lendo o correio eletrônico, vi uma mensagem do Repórter Regap pedindo sugestões para pauta. Sugeri que fizéssemos uma reportagem sobre a água potável da Regap, o que foi aceito. Marcamos a entrevista para a semana seguinte. Encontrando com Eloísia, a coordenadora da Comissão do Meio Ambiente, comentei com ela sobre a entrevista e ela me fez uma pergunta surpreendente: - Por que você não faz uma análise da água do poço da Copasa? Ela, então, me explicou o que estava se passando. A direção da Regap entendia que seria impossível voltar a captar água para consumo humano da represa e havia lhe pedido que apresentasse opções. Uma das opções era o uso de poços artesianos. Resolvi, então, fazer um teste de vazão e coletar amostra de água, que seria analisada de acordo com o padrão de água potável vigente. Chamei o Antônio Sérgio para me ajudar a fazer as especificações técnicas. Antônio Sérgio chegou prontamente. Analisando o poço, disse que faltava laje sanitária para protegê-lo da intrusão de água de chuva. Incluí a laje sanitária nas especificações técnicas. A firma vencedora foi a Hidrorizonte, coincidentemente a mesma que perfurou o poço. Realizados os serviços, constatou-se que a água estava dentro dos padrões de potabilidade, inclusive com relação a ferro e a manganês. Eloísia levou o resultado da análise ao superintendente, que lhe pediu um estudo comparativo entre o uso de poços artesianos, a compra de água da Copasa e a continuação do fornecimento de água mineral à população da Regap. Ela me pediu que fizesse esse estudo. Provei que a água de poços artesianos era muito mais barata que a água da Copasa e que o empreendimento se pagaria em pouco tempo com a economia de água mineral. Diante disso, telefonei para o Repórter Regap e pedi para adiar a entrevista para o mês seguinte, quando saberíamos qual seria a solução para a questão da água potável na refinaria. 18 – “Já estamos atrasados.” O superintendente queria saber sobre prazos de execução. Fazendo licitação para perfuração simultânea dos poços artesianos e iniciando os trabalhos da adutora para levar a água aos reservatórios, passando pela unidade de cloração, estimei o prazo de execução em cerca de seis meses. Era o que ele queria ouvir. Em seis meses, estaria solucionado o problema da água potável na Regap. Ricardo, meu chefe imediato, me procurou, dizendo: - Precisamos começar os trabalhos imediatamente, pois já estamos atrasados. Acabamos de assumir o compromisso de realizar a obra em seis meses. Estávamos em agosto de 1996. Telefonei para o Antônio Sérgio, pedindo que comparecesse à Regap para assinar um contrato de assistência técnica. Finalmente, ia ter início a substituição da água potável da represa para poços artesianos. 19 - “Ah! Se eu soubesse!” Pedi ao Antônio Sérgio que fizesse uma proposta para locar e acompanhar a perfuração de três poços artesianos. Se conseguíssemos a vazão de 20 m3/h em cada poço, somando-se a vazão do poço mandado perfurar pela Copasa, teríamos um total de 80 m3/h, mais que suficiente para o abastecimento humano na Regap. Houve um pequeno problema de ordem financeira. Antônio Sérgio repetiu sua proposta de R$2.500,00 por poço, o que totalizaria R$7.500,00. Acontece que a lei não permitia contratos sem licitação com custo superior a R$7.000.00. Eu havia percebido como o Antônio Sérgio estava envolvido no projeto e queria que ele fosse o consultor. Se abrisse licitação, teria que contratar quem oferecesse menor preço. Expliquei a situação para ele e disse que teria que licitar caso ele insistisse em um valor superior a R$7.000,00. Como qualquer mineiro quando negocia, ele relutou um pouco, mas acabou aceitando receber o preço limite. Resolvido o problema do acompanhamento técnico, o passo seguinte seria a contratação da perfuração dos poços artesianos. Os prazos para uma licitação eram muito amplos, o que implicaria atraso na obra. Segundo me disse o Antônio Sérgio, a perfuração de um poço custava mais ou menos o equivalente a um Uno Mille, à época em torno de R$10.000,00. Para contratar a execução de um poço, bastaria uma carta-contrato simplificada, em que eu convidaria três ou mais empresas e estas me mandariam as propostas por carta. Desse modo, preparei uma licitação como carta-contrato para a perfuração de um poço, enquanto o Setor de Licitações providenciava a contratação de outros dois poços. Para perfurar o primeiro poço, foram convidadas as empresas Hidropoços, Hidrorizonte, Sondaco e Geosol. Venceu a Geosol. Antes de começarmos o serviço, havia um problema. Não havia acesso para o caminhão da Geosol. Antônio Sérgio me disse que era praxe o contratante providenciar o acesso e, por isso, não me disse para colocar na minuta do contrato qualquer referência ao acesso. Eu precisava fazer uma licitação para ser feito o acesso. Procurei o Jairo, do Setor de Obras, e lhe pedi nomes de empresas cadastradas que poderiam fazer esse serviço. Ele me deu os nomes de três empresas, mas todas as três pediram prazo até mesmo para realizar a visita técnica. Como cada dia que passava representava um dia de atraso, resolvi tomar uma atitude diferente. Tendo visto uma retroescavadeira dentro da refinaria, procurei saber a quem pertencia e me disseram que era da Lufi Engenharia. Procurei o João Paulo, proprietário da empresa, e lhe pedi para dar preço no serviço. Ele pediu dois dias de prazo para entregar a proposta. Nesse período, recebi carta das três firmas que eu havia consultado, agradecendo o convite e dizendo que não seria possível realizar o serviço. Desse modo, eu só poderia contratar a Lufi se ela apresentasse proposta até o limite de dispensa de licitação, ou seja, R$7.000,00. João Paulo levou sua proposta por escrito, bem abaixo do valor limite. Ao abrir o envelope, disse-lhe: - Parabéns! Você venceu! Ante uma resposta tão pronta, ele pediu para ver os preços das outras empresas. Não havia preços, apenas cartas agradecendo o convite. Ele coçou a cabeça e disse para si mesmo: - Ah! Se eu soubesse! 20 - Os trabalhos de terraplanagem João Paulo me disse que não poderia começar os trabalhos imediatamente, pois estava executando um serviço para a Magnum Engenharia, empreiteira da Regap. Disse-lhe que havia urgência na abertura do acesso e ele deveria realizar o serviço após o expediente. Desse modo, as atividades começaram naquele mesmo dia, mas choveu muito e, no dia seguinte, quando fui ver o que havia sido feito, fiquei abismado: parte do serviço estava perdida. Percebi que, terminada a obra, se chovesse muito, não teríamos como chegar ao local onde seria o poço. Combinei então com João Paulo que ele cascalharia o acesso, evitando, assim, que o serviço ficasse perdido. Havia, ainda, outra questão: para fazer o acesso, a máquina derrubou mata nativa. Entendi que era nosso dever plantar mudas que compensassem as plantas derrubadas. Procurei a Elza, que estava como chefe substituta do setor, e lhe pedi que requisitasse 30 mudas das diversas espécies que havia no viveiro florestal da Regap. De posse da requisição, procurei o Ângelo, responsável pelo viveiro, com quem travei uma boa amizade. Perguntei-lhe se, caso eu levasse um caroço de abacate, ele prepararia uma muda para mim. Ele não se fez de rogado e, dias depois, entre as mudas plantadas, havia um pé de abacate. A muda cresceu rápido, adubada com estrume de vaca, mas, certo dia, percebi que fora furtada. Comentei o caso com o Antônio Sérgio, que me recomendou fazer uma cerca limitando o poço. Afinal, se o pequeno abacateiro fora furtado, os poços não estariam imunes tanto a furtos como a atos de vandalismo. Terminado o acesso, chamei Antônio Sérgio para verificar o serviço. Ele não fez reparos, mas, chegando ao local em que locou o poço, reconheceu um erro que havia cometido: a locação deveria ter sido mais próxima à represa de Palmeiras, o que significava que o acesso precisava ser prolongado até lá. E agora? A solução seria fazer um aditivo ao contrato da Lufi. Procurei João Paulo e pedi que desse preço para a continuação do serviço. Ele coçou a cabeça e disse que precisaria de mais duas horas de retroescavadeira. Perguntei quanto custariam essas duas horas. Pelo valor que ele me deu, calculei quanto ele havia gasto e quanto iria receber e concluí que seu lucro seria superior a 100%. Com um lucro desses, não teria prejuízo se desse duas horas de serviço como brinde. Ele concordou. Completado o acesso, liguei para a Geosol, dizendo que os serviços de perfuração poderiam ser iniciados. Ocorre que a empresa somente montou o acampamento na quinta-feira para realizar os trabalhos na sexta, sábado e domingo. Quanto a alimentação, estando fora da área da refinaria, não hesitei em autorizar que cozinhassem. Para a equipe de perfuração, trabalhar no sábado e no domingo era absolutamente normal, mas não para mim, pois isso significava que eu teria que sacrificar parte de meu final de semana. 21 - Um golpe de sorte Quando os serviços de perfuração do poço começaram, senti grande emoção. Haviam sido dois anos de luta para chegar àquele momento. Antônio Sérgio não saía da beirada do poço. Na tarde de sexta-feira, foi até minha sala para dizer que já haviam encontrado água da rocha. Corri para lá e adorei ver aquele espetáculo de água cristalina saindo do solo. Wilson, o chefe dos sondadores da Geosol, disse que a perfuração somente seria concluída na segunda-feira. No domingo, pela manhã, rumei para lá no intuito de verificar como andavam os trabalhos. Teria sido melhor se não tivesse ido. A vazão estava baixíssima: 2,5 m3/h, muito inferior à esperada. No dia seguinte, chegando à Regap, telefonei para o Antônio Sérgio. Ele tinha estado lá no sábado e já sabia da má notícia. Fez, então, a seguinte sugestão: - Vamos colocar filtro no poço e aproveitar também a água do lençol freático. Era tudo o que eu não queria ouvir. Em todos os meus trabalhos, eu havia frisado a qualidade da água esperada para os poços artesianos. Aproveitar o lençol freático seria comprometer essa qualidade. Disse isso para ele, que retrucou: - Nós vamos vedar os primeiros trinta metros do poço e somente usar a água abaixo dessa cota para que haja trinta metros de filtração. - Mas... e a represa? Está tão próxima. Não haverá percolação de água da represa para o poço? Antônio Sérgio já tinha pensado nisso: - Trinta metros em terreno arenoso são suficientes para matar qualquer bactéria! Pensei que não poderia dar uma resposta pronta e fui até minha sala consultar o Claudius. Ele havia chegado do Rio recentemente e quando eu o coloquei a par do empreendimento dos poços artesianos, pareceu-me muito interessado. Ele disse que estaríamos mudando a meta e fazendo poço freático em vez de poço artesiano. Se eu autorizasse a colocação de filtros no poço, correria o risco de estragar a qualidade da água. Por outro lado, se eu mandasse completar o poço com uma vazão tão baixa, corria o risco de inviabilizar o empreendimento. Decidi, então, ouvir a opinião do chefe dos sondadores da Geosol. Dirigi-me ao poço e perguntei o que achava de colocar filtros no poço. A resposta do Wilson foi pronta: - Se você mandar colocar filtro, vai estragar o poço. Éramos, portanto, três contra um. Telefonei para Antônio Sérgio contando o que me dissera o Wilson, ao que ele respondeu: - É claro que ele ia dizer para não colocar filtro. Afinal, ele ganha por metro de poço perfurado. Filtro vai-lhe dar prejuízo. Pedi, então, que ele fosse à Regap para decidirmos o que fazer. Ele, no entanto, estava numa oficina, consertando seu carro. Resolvi, então, mandar um carro para buscá-lo. Enquanto aguardava o Antônio Sérgio, julguei prudente dar um retorno para o Wilson. Disse-lhe que estava esperando o consultor para decidirmos o que fazer. Ele protestou: não podia ficar parado, esperando uma solução. Tive, então, um verdadeiro “insight”. Disse-lhe: - Perfure mais dez metros! O poço já estava com 104 metros. Se, com essa profundidade, a vazão era de apenas 2,5 m3/h, era pouco provável que aumentaria significativamente com mais dez metros. Resolvi, no entanto, seguir minha intuição e mantive a ordem. Chegando a minha sala, recebi a notícia de que o Setor de Serviços Gerais não tinha um carro disponível e mandara um táxi buscar o Antônio Sérgio. Ocorre que ele tinha um contrato de consultoria que não previa o fornecimento de transporte pela Regap. O vigilante, portanto, não quis pagar o táxi. Criou-se um impasse até que eu procurasse o Ricardo, que autorizou o pagamento. Quando Antônio Sérgio chegou à minha sala, não lhe dei tempo de se recuperar do constrangimento pelo qual havia passado e falei da orientação para perfurar mais dez metros. Ele disse que não adiantaria e que a solução era colocar filtro. Disse que, nos Estados Unidos, os poços são perfurados com projeto de filtro para se aproveitar também a água do lençol freático. No nosso caso, isso deveria ser feito sem receio, pois o terreno era arenoso e a vazão da rocha, pequena. Sem querer tomar uma decisão de pronto, argumentei: - O Wilson está perfurando mais dez metros. Vamos esperar que ele termine e decidiremos o que fazer. Levei-o ao local da obra, dizendo que o buscaria ao final do expediente. Antes, no entanto, de sair para buscá-lo, ele e Wilson chegaram a minha sala com uma ótima notícia: haviam descoberto uma fratura e a vazão do poço dobrara. Não havia, portanto, necessidade de se colocar filtro. Se havia sido descoberta uma fratura a mais de 100 metros de profundidade, poderia haver outras. Antônio Sérgio sugeriu que a perfuração continuasse até 150 metros. No dia seguinte, quando a sonda atingiu 150 metros, a vazão do poço estava em 11,5 m3/h. Comentei com meu filho mais velho, que achou estranho eu mandar perfurar mais dez metros baseado apenas na intuição. Lembrei-me de casos semelhantes contados por professores do meu curso de engenharia e arrematei: - Às vezes a gente precisa contar também com um pouco de sorte! 22 - Tocando vacas e a eleição municipal O poço estava pronto. Fui, então, despedir-me dos sondadores e marcar o teste de vazão, com a coleta de amostras para ser verificada a qualidade da água. A refinaria era separada por um grande portão da área cedida em comodato, onde fora perfurado o poço. Essa área, embora pertencesse à Petrobras, estava sob a guarda de Seu Manoel, que criava vacas. Os animais se sentiram atraídos pela equipe de sondagem e já haviam feito uma visita incômoda, comendo o almoço dos sondadores. Para facilitar o trânsito da equipe, o portão ficou sem o cadeado, mas sendo mantido permanentemente encostado. Acontece que alguém o esqueceu aberto e, ao chegar ao local, deparei com algumas vacas tentando passar pelo portão. Tive, então, que fazer um trabalho que jamais imaginei que faria um dia na refinaria: tocar vacas. Voltei a minha sala e pedi ao Nilson para ir comigo e ficar do lado de dentro do portão, para impedir as vacas de passarem. Em seguida, chamei dois sondadores e cercamos os animais, obrigando-os a passar para o outro lado do portão. Quando retornei a minha sala, contei a aventura aos demais colegas. Era realmente algo inusitado. Quem gostou mesmo da história foi meu filho caçula, que adorava ficar na varanda de nossa casa em Alfenas vendo as vacas pastarem. Resolvida a questão das vacas, pusemo-nos a tratar do teste de vazão, normalmente feito com um compressor durante 24 horas. Ocorre que Antônio Sérgio, preocupado com a vazão de trabalho do poço anterior, havia pedido que fosse incluído no contrato um teste com bomba submersível por mais 12 horas. Desse modo, o teste teria a duração de 36 horas. O chefe da equipe que faria os testes, que já se encontrava no local, protestou: - Trouxemos apenas o compressor. A bomba submersível está em outra obra, fora de Belo Horizonte. Não concordei. Afinal, o contrato exigia ambos os testes e ele não poderia reclamar, pois receberia por cada minuto que estivesse trabalhando, conforme a planilha que a Geosol havia apresentado na tomada de preços. Isso não o convenceu. Argumentou de todas as formas que não haveria necessidade de teste com bomba. Eu, no entanto, batia o pé, dizendo que ambos os testes deveriam ser realizados. Finalmente, ele apresentou um argumento fortíssimo: - Depois de amanhã é 3 de outubro, dia de eleição para prefeito. Se formos fazer o teste com a bomba, vamos trabalhar nesse dia e ficaremos sem votar. Não tive como responder de imediato, pois precisaria consultar o Antônio Sérgio. Fui até minha sala e telefonei para ele, que disse ser desnecessário o teste com bomba. Se o consultor dizia que o teste era desnecessário, o que, além disso, representaria economia para a Petrobras, eu não tinha por que exigi-lo. Desse modo, acertei com a equipe o teste de 24 horas apenas com o compressor. Chegando em casa, comentei com meu filho como havíamos dispensado parte do teste por causa da eleição. Ele, então, perguntou: - Pai, você perguntou em quem eles vão votar? - Claro que não! O voto é secreto. - Pois devia ter perguntado. Se eles forem votar no..., seria melhor deixá-los trabalhar no dia da eleição. 23 - A contratação da geofísica Realizado o teste de vazão no poço perfurado pela Geosol, tivemos ótima notícia: a análise química estava dentro do padrão de potabilidade vigente. Quanto à análise biológica, foi detectada a presença de coliformes. Não via razão para isso, visto que não havia presença de amônia ou de nitrito na amostra colhida e a presença de nitrato era pequena, indicando que, qualquer contaminação que pudesse ter havido na água do poço, era muito antiga. Entrei em contato com o Antônio Sérgio, que me disse se tratar de contaminação provocada pela própria sonda. Nós deveríamos desinfetar o poço e fazer nova coleta de amostra. Fizemos isso e, na nova amostra, não foi verificada a presença de coliformes. A equipe da Geosol ainda estava em campo quando fui comunicado pelo Setor de Licitação que estava tudo pronto para a concorrência para perfuração de dois outros poços artesianos. De acordo com as normas da Petrobras, deveriam ser convidadas todas as empresas do ramo cadastradas. Assim, foram chamadas a Geosol, a Hidropoços, a Hidrorizonte e a Sondaco. Venceu a Hidrorizonte. Ocorre que um pequeno detalhe desclassificou a empresa vencedora. Um dos itens a ser cotado era o relatório final. A Hidrorizonte entendeu que não haveria custo para elaborar o relatório e colocou preço zero. Como isso é proibido pela lei de licitações, foi desclassificada e convocada a segunda colocada, a Hidropoços. Antes de assinar o contrato, no entanto, era preciso aguardar o prazo para interposição de recurso. Durante esse prazo, seria feita a locação dos dois poços. O susto que passei na perfuração do poço pela Geosol, com a vazão de apenas 2,5 m3/h a uma profundidade superior a 100 metros me levou a fazer a pesquisa de um método que me indicasse com maior precisão onde encontrar água. Quem me disse que os poços de petróleo são, geralmente, locados por geofísica, foi o colega Nilson. Se valia para poços de petróleo, certamente valeria também para poços de água. Consultando um livro sobre poços de água, verifiquei que, para localizar mananciais de água no subsolo, o geofísico passa fios conduzindo eletricidade sobre o solo. Como a água contém sais dissolvidos, é ótima condutora de energia elétrica e, portanto, os locais onde a resistência é mais baixa são os melhores para se encontrar água. Resolvi, então, que os dois poços seriam locados por meio da geofísica. Telefonei para o Antônio Sérgio dizendo-lhe que usaríamos a geofísica para locar os dois próximos poços, o que o desagradou. Segundo ele, já havia acontecido de poço indicado por geofísica ser completamente seco. Diante do impasse, consultei os colegas de setor e todos foram unânimes em me aconselhar a contratar uma empresa que indicasse um método científico de determinação da ocorrência de água na rocha. Diante disso, procurei o chefe do setor e Ricardo concordou que eu fizesse uma tomada de preços para essa finalidade. Consultei um colega meu que trabalhava na Copasa sobre as firmas que eu deveria convidar. Ele me indicou a Sênior Geologia e Mineração. Como a Hidropoços também fazia pesquisa por geofísica, tínhamos duas empresas. Era necessária uma terceira empresa caso o preço fosse superior a R$7.000,00, limite estabelecido pela lei para dispensa de licitação. Como não encontrei outra empresa do ramo na região metropolitana de Belo Horizonte, resolvi fazer a tomada de preços apenas com as duas empresas, torcendo para que o preço fosse até R$7.000,00. Venceu a Sênior com o preço de R$5.700,00. A Sênior deveria começar os serviços imediatamente para que não houvesse atraso na perfuração dos poços. Entretanto, Antônio Sérgio estava firme na sua posição de que estávamos gastando dinheiro à toa, pois ele era capaz de locar os poços com muito maior precisão. Na realidade, seu contrato previa a locação dos poços e não havia como separar esse serviço dos outros. Portanto, independente de ele locar ou não os poços, teríamos que lhe pagar o preço combinado. No entanto, como já disse, eu não podia correr o risco de ter outro poço com vazão baixa. Era melhor usar a geofísica, mesmo pagando por ela, para ter maior garantia. Procurei usar de toda a habilidade possível para que Antônio Sérgio não perdesse o entusiasmo que vinha demonstrando desde que passou a trabalhar conosco. 24 - Os trabalhos de geofísica Antônio Sérgio ignorou os trabalhos de geofísica e indicou onde entendia fossem os melhores locais para se perfurar poços. Enquanto isso, as medidas de resistência elétrica foram feitas e os dados enviados para Bicas, onde residia o consultor técnico. De posse dos dados, ele me enviou o relatório, indicando os prováveis locais onde deveriam ser perfurados os dois poços. Mostrei o relatório ao Antônio Sérgio e, pela primeira vez, o vi exaltado. Segundo ele, uma simples inspeção visual mostrava que aqueles locais não eram os mais apropriados para a perfuração de poços. Diante disso, resolvi conversar com o Nilson, que me havia falado sobre a geofísica para locar poços de petróleo, e pedi-lhe opinião. Ele disse que eu tinha um método científico à mão e não deveria optar por outro, que se assemelhava a quiromancia. Em outras palavras, eu deveria, sem dúvida alguma, seguir o relatório da geofísica. Ocorreu-me, então, uma ideia: pedir aos funcionários da Sênior que passassem resistência nos locais indicados pelo Antônio Sérgio para compará-los aos que haviam sido considerados propícios. Os rapazes atenderam a meu pedido e enviaram os dados para o consultor técnico. No dia seguinte, Cleves, o representante da Hidropoços, me procurou para dizer que a empresa estava pronta a iniciar os trabalhos em dez dias. Entretanto, eu ainda não estava certo onde mandar perfurar os poços. Telefonei para Bicas para falar com o consultor da Sênior e demorei a ser atendido. É que ele, aposentado na UFMG, exercia naquela cidade sua outra profissão: a de médico. Quando, finalmente, consegui falar com ele, perguntei-lhe sobre os locais indicados pelo Antônio Sérgio e ele me disse que não eram os mais propícios. Em suma, mantinha o relatório que me havia mandado. Diante disso, procurei o Antônio e lhe disse que iria atender à geofísica. Ele protestou que eu não estava aceitando suas ponderações: não quis colocar filtro no poço e estava dando mais importância a um estudo teórico que a uma análise local de onde se devia perfurar um poço artesiano. Disse-lhe que, no caso do filtro, eu não poderia aceitar devido à proximidade do “land farming”, que é onde são lançados os resíduos de petróleo. Como eu, ele não admitiria que tais resíduos contaminassem o poço, cuja água se demonstrou ser de qualidade. Quanto ao estudo da geofísica, como eu contratei o serviço, tinha obrigação de usá-lo. Ele aceitou meus argumentos, mas continuou aborrecido. 25 - O acesso ao novo poço Conta JK em suas memórias que, ao fundar a Cemig, estava tendo dificuldade para que as empresas e o público em geral subscrevessem suas ações. Embora não fosse função sua, telefonou para as maiores empresas sediadas em Minas Gerais e foi assim que Belgo Mineira, Mineração Morro Velho e outras compraram ações da nova estatal. O caso mais engraçado foi o de uma firma inglesa, em que o diretor recusou-se a atender-lhe o telefonema, mandando dizer que estava almoçando. JK telefonou para o cônsul inglês e lhe disse que não o receberia mais como amigo por causa da desfeita que lhe fora feita. À tarde, o empresário foi a seu gabinete e subscreveu o dobro das ações que lhe estavam destinadas. Para evitar os problemas que tive com o acesso ao poço perfurado pela Geosol, coloquei no contrato que sua construção ficaria por conta da empresa que vencesse a concorrência. Telefonei, então, para o Cleves e lhe disse que precisávamos combinar a abertura dos acesso para o primeiro dos dois poços. Pela conversa, percebi que a Hidropoços não tinha maquinário próprio e nem mesmo contato com empresas que fizessem esse tipo de serviço. Talvez lhes tenha passado despercebido esse item do contrato. Lembrei ao Cleves que a Lufi Engenharia estava fazendo serviços de subempreitada na Regap e ele poderia contratar-lhe os serviços. Não adiantou essa ajuda. Posteriormente, recebi telefonema do Frederico, diretor da Hidropoços, dizendo que os acessos ainda não poderiam ser feitos porque estava chovendo muito. Conversando com João Paulo, informei-me de que a Hidropoços ainda não havia procurado a Lufi. Resolvi, então, entrar no circuito e pedi que o Frederico comparecesse à Regap para discutirmos detalhes do contrato e chamei João Paulo também. Para manter o Antônio Sérgio prestigiado, informei-o sobre o encontro. Quando Frederico e Cleves chegaram à minha sala, Antônio Sérgio e João Paulo já estavam lá. Disse, então, que precisávamos verificar onde seriam feitos os acessos. Ao nos encaminharmos para o carro, Cleves saiu-se com essa: - Vamos em comitiva? Antônio Sérgio, embora a contragosto, indicou onde seria o melhor local para serem feitos os acessos. Os funcionários da Hidropoços poderiam entrar no terreno da Petrobras (cedido ao Manuel em comodato) sem precisar passar pela refinaria. Consegui que o Frederico se comprometesse a instalar um portão de acesso no limite do terreno, portão esse que eu já havia encomendado ao Setor de Serviços Gerais. Tudo acertado, faltava discutir valores. Antônio Sérgio e eu nos afastamos discretamente enquanto Frederico e João Paulo combinavam o preço. De volta a minha sala, ficou estabelecido que os serviços se iniciassem no dia seguinte, mas a chuva intensa durante dois dias seguidos o impediu e o acesso somente ficou prontos três dias depois da visita ao local das obras. 26 - O fracasso da geofísica Tudo que cai no jequi é peixe. Quando os trabalhos de perfuração começaram, percebi grande ansiedade no Antônio Sérgio. Se, por um lado, por estar bastante envolvido no empreendimento, desejava sucesso para o novo poço, por outro lado, se este suportasse uma vazão maior que o poço que ele havia locado, seria ruim para ele profissionalmente. Embora ele não dissesse nada, dava para perceber o conflito em que se encontrava. A perfuração foi até 150 metros e a vazão foi de apenas 7,5 m3/s para um rebaixamento de nível quase o dobro do anterior. O fracasso foi tal que Frederico foi perguntar-me antes de completar o poço se eu queria aproveitá-lo ou descartá-lo. Sem dúvida alguma, iríamos aproveitá-lo. Afinal, se no requisito vazão o poço foi um fracasso, quanto à qualidade da água, foi um sucesso. Por que teria fracassado tanto o estudo da geofísica? Por que o Antônio Sérgio havia dito com tanta certeza que a locação do poço estava errada? São problemas que eu não conseguia resolver. Entretanto, o fracasso da geofísica em obter um poço com boa vazão me levou a desconsiderar a locação do outro poço e incumbir o Antônio Sérgio de fazer sua locação. 27 - O poço que o Antônio Sérgio locou O fracasso tem muitas explicações. Já o sucesso, não é preciso explicar. (Luiz Francisco Botti) Chamei o Antônio Sérgio e lhe fiz ver a responsabilidade que estava sobre nossos ombros: o poço que “herdamos” da Copasa dera vazão de quase 20 m3/h; o poço que a Geosol havia perfurado dera vazão de 11,5 m3/h e o primeiro poço perfurado pela Hidropoços dera vazão de 7,5 m3/h. Somando as vazões dos dois últimos poços não dava a vazão do primeiro. De duas, uma: ou a Copasa era muito melhor do que nós ou estávamos com muito azar. Ele respondeu que, quanto ao primeiro poço, o local apropriado seria dentro da represa; como era impossível perfurá-lo lá, tivemos que nos contentar com ele às margens da represa e, com isso, saímos da fratura principal. Quanto ao segundo poço, eu não poderia responsabilizá-lo, pois a locação não fora feita por ele. - Sugiro – continuou ele – que coloquemos filtro no próximo poço, caso contrário não obteremos a vazão necessária de 70 m3/h para a bateria de poços. Resolvi concordar com ele. Perfuraríamos o poço, colocaríamos o filtro e analisaríamos a água. Se ela não tivesse qualidade apropriada, abandonaríamos o poço. Era um risco que eu estava disposto a correr. Para colocarmos filtro, teríamos que comprar areia, brita e o próprio filtro. Seria interessante que a Hidropoços se encarregasse disso. Pedi ao Frederico que me apresentasse os preços unitários de cada um deles. Ao contrário do que esperava, ele não se aproveitou de estar cotando materiais sem concorrência e apresentou proposta dentro dos preços de mercado. Agora, era partir para a perfuração e fosse o que Deus quisesse. Escolhido o local de perfuração do poço, surgiu o primeiro problema. O acesso que havia sido construído não serviria, visto que um córrego passava no meio do caminho entre os dois poços e nem mesmo uma ponte poderia ser feita, visto que, como estávamos na estação de chuvas, o córrego cobriria a ponte. Lembrei que o contrato previa a construção de dois acessos e a empresa havia feito apenas um. Portanto, precisava fazer o outro acesso, visto que, pela nova localização, os poços ficariam distantes um do outro. Disse que o prazo contratual estava acabando e que os serviços deveriam começar imediatamente. Minha reclamação foi positiva. Frederico foi à Regap e combinou com o João Paulo para começar o acesso imediatamente. Pronto o acesso, teve inicio a perfuração do poço. Antônio Sérgio ficava o tempo todo na obra e, ao final do expediente do dia, vinha me contar as novidades. No segundo dia de trabalho, disse que acharam uma fratura a aproximadamente 35 metros de profundidade. Era uma excelente notícia e eu me animei a perguntar: - E o filtro? Vamos precisar instalar? Ele estava eufórico: - Não vai haver filtro. A fratura está muito próxima à superfície. Respirei aliviado. Fui com ele ao local da obra e, chegando ao acampamento, convidou-me para tomar café. Não sou muito adepto de café sem um pãozinho com manteiga, mas as canecas de ágata dos sondadores me fizeram lembrar a casa de minha avó em Venda Nova, no tempo em que não existia a Avenida Vilarinho e lá passava o córrego de mesmo nome. Tomei o café como se estivesse novamente em casa de Vó Judith. Chegando perto de onde o poço estava sendo perfurado, verifiquei que a água jorrava, cristalina. Fiz as mãos em concha e bebi um pouco, mas, imediatamente, meu estômago embrulhou. Suspeitei que a água não era de qualidade. No dia seguinte, dirigi-me ao local da obra e encontrei Antônio Sérgio satisfeito, dizendo que a vazão do poço havia atingido 25 m3/h, superior à do poço “herdado” da Copasa. Eu, no entanto, continuava apreensivo com relação à qualidade da água. Foi quando um sondador chegou-se a mim e perguntou: - Posso lhe fazer uma pergunta? Procurei ser simpático: - Até duas! Ele pensou um pouco e disse: - O senhor me autorizou a fazer duas perguntas. Então, vamos lá. O senhor acredita que Jesus Cristo vai voltar? - Tenho minhas dúvidas – respondi. - Acredita que Jesus Cristo já veio? - Claro que sim! Ele pensou um pouco e disse: - Pronto! Já fiz as duas perguntas. Esperei um pouco para mudar o clima da conversa e disse: - Agora sou eu quem pergunta. Você bebeu da água desse poço? - Bebi, sim. - E do outro que vocês perfuraram? - Também bebi. - De qual dos dois a água é melhor? - Do outro. Infelizmente, minhas suspeitas estavam se confirmando. 28 - Água pura Segundo o Antônio Sérgio, a vazão do poço poderia atingir 30 m3/h. Mesmo assim, a vazão total ficaria abaixo de 70 m3/h, que era o consumo mínimo de água potável na Regap. Diante disso, conversei com Ricardo e ele me autorizou a contratar a perfuração de mais um poço. Minha preocupação maior era com relação à qualidade da água desse poço, ao qual demos o nome de poço 2, por estar mais próximo ao poço “herdado” da Copasa, que tomou o nome de poço 1. Telefonei para a Madalena, meu contato no laboratório, e pedi a ela que mandasse alguém coletar amostra da água do poço daí a dois dias, quando estaria concluído o teste de vazão. Foi um colega nosso coletar a amostra e o material foi enviado para ser analisado em um laboratório externo. O resultado da análise foi pior do que eu poderia imaginar: 920 colônias de coliformes em uma amostra de 100 mililitros, sendo 420 de origem fecal. Disse ao Antônio Sérgio que esse poço seria um sucesso em termos de vazão, mas um insucesso em termos de qualidade da água. Ele, no entanto, parecia tranquilo e repetiu o que dissera na análise da água do poço perfurado pela Geosol: durante a sondagem, o poço é contaminado e uma análise da água só tem valor depois da descontaminação do poço. Comentando com o Cleves sobre o resultado da análise, ele perguntou qual laboratório a havia feito. Quando lhe mostrei o laudo, ele balançou a cabeça e disse: - Por que você não contrata a análise em um laboratório mais confiável? Lembrei-me de que o Prof. Julião tinha um laboratório considerado excelente para análise de água. No entanto, havia dois problemas: eu não podia especificar um laboratório para fazer análise e nem tinha como exigir que a Hidropoços fizesse novo teste de vazão apenas para coletar amostra de água. Resolvi, então, colocar na especificação para a perfuração do novo poço que a empresa desinfetaria o poço 2 e o bombearia à vazão de 25 m3/h (vazão considerada estável pelo Antônio Sérgio) durante 4 horas, após o que coletaria amostra para ser analisada. Tudo foi feito conforme especificado e a amostra enviada para ser analisada no laboratório do Prof. Julião. Dessa vez, a análise foi bastante satisfatória: zero coliforme fecal! Podíamos dizer sem nenhum receio: Tínhamos água pura também nesse poço. 29 - O Repórter Regap Corria o ano de 1956. Juscelino era presidente e sua meta principal era que Brasília ficasse pronta durante seu mandato. Entretanto, a transferência da capital teria que ser votada no Congresso e, para isso, ele encomendou a sua assessoria um projeto de lei. Quando este ficou pronto, o governador de Goiás convidou-o para que a assinatura acontecesse em Goiânia, visto que Brasília seria construída no Planalto Central. Assim, ele tomou o avião no Rio de Janeiro e se dirigiu para a capital de Goiás, mas o aeroporto de Goiânia estava fechado e ele teve que descer em Anápolis. O dia estava lindo e JK convidou seus assessores para um café. Foi então que tomou uma decisão surpreendente: convidou o prefeito da cidade a comparecer ao restaurante para fazer uma ata da assinatura do projeto de lei que seria dada lá mesmo em Anápolis. Depois justificou: - A festa em Goiânia teria cobertura dos principais jornais e chamaria atenção da oposição, que poderia boicotar o projeto de lei. Assinado em Anápolis, passou despercebido e foi aprovado sem maiores problemas. Enquanto ultimava os detalhes para a contratação do último poço, recebi a visita do Repórter Regap. Já me tinha esquecido de ter procurado o órgão de notícias da refinaria para falar sobre meus planos de executar poços artesianos. A entrevista acabou sendo adiada e agora Rosângela vinha a minha sala acompanhada por um fotógrafo. É evidente que eu já não precisava mais da entrevista e, agora, ela poderia chamar a atenção para as obras que estavam se desenvolvendo. Muita gente poderia dar palpite, o que seria prejudicial. Expliquei isso a Rosângela e ela pareceu entender. Combinei com ela que, após a conclusão dos trabalhos, eu convidaria o Repórter Regap para uma entrevista. 30 - O último poço Quando ainda estudante, fui estagiário na Companhia Mineira de Águas e Esgotos e participei de uma concorrência para adquirir tubos e conexões para várias obras que estavam por se iniciar. Analisando as propostas, cheguei a uma conclusão interessante: havia apenas duas empresas que forneciam PVC e duas empresas que forneciam ferro fundido. Uma das empresas ganhou todos os itens da concorrência para fornecimento de PVC e a outra, todos os itens para fornecimento de ferro fundido. Chegamos à conclusão de que havia indício de conluio entre as empresas, com as derrotadas apenas justificando os preços das vencedoras. Como os quatro poços perfurados, em conjunto, não deram a vazão demandada pela refinaria para água potável, tornava-se necessário perfurar outro poço. Portanto, nova concorrência deveria ser feita. Para me precaver contra eventuais conluios, decidi convidar mais uma empresa para participar da carta-convite. Tendo visto um outdoor da Road, consultei Antônio Sérgio se ela reunia condições de fazer um bom serviço. Ante a resposta afirmativa, juntei-a às demais empresas que participaram das concorrências anteriores. Embora se tratasse de uma carta-convite, julguei oportuno convidar todas as empresas a apresentar a proposta na mesma data. Venceu a Road, com valor total de aproximadamente R$10.000,00. A Road, como indica seu nome em inglês, trabalhava também com a execução de estradas e, portanto, dispunha de máquinas para corte e aterro, motivo pelo qual decidiu ela própria fazer o acesso. As chuvas continuavam e, quando finalmente houve uma estiagem, os serviços começaram. Percebi, no entanto, que a empresa atuava como quem dá um tiro de canhão para matar um mosquito. As máquinas que ela levou eram enormes, próprias para desbravar regiões inóspitas, mas não conseguiam trabalhar em áreas alagadas. Eu estava fiscalizando a abertura do acesso, quando vi uma das máquinas atolar. Outra foi em socorro e acabou atolando também. Por sorte, passava uma Patrol na estradinha próxima e o pessoal conseguiu que ela ajudasse a desatolar as máquinas. No dia seguinte, recebi um telefonema do Oseias, geólogo da Road. Ele disse que seria muito difícil para a empresa fazer o acesso naquele local e pedia para ele próprio fazer a locação do poço. Eu vinha de duas experiências frustradas com a locação de poços e não podia, em hipótese alguma, concordar. Ele, então, fez nova proposta: locaria o poço e, se desse vazão inferior a 10 m3/h, faria novo poço sem custo para a Petrobras. Com 10 m3/h completaríamos a vazão demandada pela Regap. Se o poço atingisse essa vazão, o problema estaria resolvido. Se, por outro lado, não a atingisse, teríamos outro poço de graça. Era, portanto, uma proposta atraente. Não hesitei em dizer: - Ponha isso no papel e vamos fazer um aditivo ao contrato. No dia seguinte, quando me dirigia à obra no carro do setor, encontrei meu colega Claudius chegando para o serviço. Convidei-o, então, a ir comigo ao poço. Foi ótimo porque eu havia esquecido em casa os óculos e ele pôde ler para mim a proposta. O texto diferia do que havíamos combinado. Em vez de considerar a vazão mínima em 10 m3/h, ele havia colocado 9 m3/h. Entretanto, não era essa a principal alteração. Caso o poço não atingisse essa vazão, a Road teria o direito de retirar a tubulação do poço anterior e escolher outro local para perfurar o poço. É claro que um aditivo dessa natureza seria altamente lesivo à Petrobras. Não quis nem discutir. Fomos para nossa sala e liguei para o diretor financeiro da empresa, sugerindo que eles pedissem rescisão do contrato, o que foi feito. Com o pedido na mão, procurei o Ricardo, que concordou em convocarmos a segunda empresa colocada. Embora o episódio tenha sido nefasto, teve um lado positivo. A Hidropoços, segunda colocada na concorrência, estava sendo contratada com obrigação de mostrar serviço, visto que a outra empresa não dera conta do recado. Novamente tive que insistir com Frederico para que ele aproveitasse uma pequena trégua dada pelas chuvas e providenciasse a construção do acesso, o que foi feito. 31 - A contratação do projeto executivo A epopeia da perfuração dos poços estava em fase de conclusão. A Hidropoços havia assinado o contrato para perfurar o quinto e último poço. Para não perder tempo, comecei a especificar a contratação do projeto executivo. Especifiquei que os cinco poços lançariam a água em um reservatório, que chamamos de reservatório de reunião. Como o terreno onde se situavam os poços era muito alagado, achei por bem especificar que as tubulações que os ligariam ao reservatório de reunião seriam aéreas e de ferro fundido. Do reservatório de reunião, a água seria conduzida à unidade de cloração por uma longa adutora em PVC, com diâmetro equivalente em ferro fundido. Assim, se houvesse algum trecho que precisasse ser aéreo e, portanto, de ferro fundido, não haveria problemas de acoplagem com a tubulação de PVC. Para dimensionar o diâmetro dessa adutora, usei fórmulas empíricas que apresentavam o diâmetro mais econômico, que não fosse muito pequeno, o que aumentaria excessivamente o consumo de energia elétrica, nem muito grande, que representasse custo de aquisição muito alto. Cheguei à conclusão de que o diâmetro econômico estaria entre 150 e 200 mm. Portanto, eu deveria escolher entre esses dois, já que não existe um diâmetro comercial intermediário. Optei por 150 mm sem nenhuma razão aparente. Mais tarde, eu veria como essa escolha foi acertada. Da unidade de cloração a água seria bombeada para os reservatórios elevados existentes, sendo bomba e tubulação já existentes. Finalmente, atendendo a sugestão do Antônio Sérgio, coloquei que cada poço deveria ser cercado por arame farpado. Feita a especificação técnica, restava fazer os convites. Mas a quem convidar? O cadastro da Petrobras não tinha nenhuma empresa especializada em projeto de abastecimento de água. Apelei novamente para a Copasa e falei com o Mário, que havia sido meu colega quando a empresa ainda se chamava Companhia Mineira de Águas e Esgotos – Comag. Ele indicou três empresas: Esse, Pentágono e Oliveira & Marques. Venceu a Pentágono. Eu estava para tirar férias, mas, antes, queria deixar iniciada a perfuração do quinto poço, que seria acompanhado pelo Claudius, juntamente com o Antônio Sérgio. Telefonei para o Cleves da Hidropoços, que me informou estar a sonda indisponível no momento, mas que, tão logo estivesse liberada, os trabalhos teriam início. 32 - A aposta Foi em março, ao findar das chuvas, quase á entrada Do outono, quando a terra, em sede requeimada, Bebera longamente as aguas da estação (...) Olavo Bilac, O caçador de esmeraldas Corria o mês de março. Eu estava em férias e, como havia planejado antecipadamente, fui buscar um documento na Universidade de Alfenas, que seria fundamental quando eu me aposentasse. Aproveitei para me encontrar com diversos amigos e para ir a uma reunião de associação da qual eu fazia parte, onde me encontrei com ex-alunos. Foi no encontro com um ex-aluno que fiquei sabendo a razão do atraso na perfuração do quinto poço. Celso, representante comercial da Hidropoços em Alfenas, disse-me que estava coordenando a perfuração de dois poços artesianos na cidade e estava precisando da sonda que iria para a Regap. Disse que me foi procurar na refinaria, mas soube que eu estava de férias. Respondi-lhe que os serviços tinham que começar imediatamente porque a Hidropoços tinha um contrato com a Petrobras com prazo para a execução do serviço. Ele insistiu: - Tem chovido muito e por isso não foi possível iniciar o serviço. Disse-lhe que as chuvas estavam no final. Ele insistiu, dizendo que o acesso ainda não havia sido feito. Respondi-lhe que isso era por conta da Hidropoços e não podia ser desculpa para atraso da obra. Ele, então, fez um último apelo: - Deixa que eu ganhe um dinheirinho primeiro. Percebi que estava conversando sobre assunto errado, em local errado. Disse, então: - Olhe como são as coisas: eu estou de férias e resolvendo assuntos de trabalho aqui! Como havia outras pessoas por perto, o assunto acabou. Retornando das férias, Claudius me passou a informação de que os serviços já haviam começado. A perfuração estava a meio, mas Antônio Sérgio não estava satisfeito. A vazão estava muito baixa e indicava que o poço não seria melhor que aquele locado pela geofísica. Entretanto, o pessoal da Hidropoços recomendou que não se usasse filtro, devido à proximidade do córrego Palmeiras. Precisávamos decidir o que fazer. Era sexta-feira à tarde e não poderíamos deixar o pessoal da Hidropoços esperando uma decisão durante todo o fim de semana. Por isso, combinei com o Antônio Sérgio que iríamos no dia seguinte cedo para a beira do poço. Chegando lá, ele foi logo coletando as pedras retiradas do poço, dizendo que fazia coleção desse material e que mantinha algumas dessas amostras em sua mesa de trabalho. Explicou que a natureza havia demorado séculos para moldar aquelas pedrinhas e que, só naquele dia, nós, os humanos, havíamos tocado nelas. Achei muito poética a ideia, mas não estava interessado. Pedi que o compressor fosse ligado e medíssemos a vazão. Verificamos que estava próxima de 11 m3/h. Achei o valor razoável, pois nos daria uma vazão total superior a 70 m3/h, que era a demanda necessária. Foi quando Antônio Sérgio tirou do bolso uma nota de 10 reais e a passou a um dos sondadores. Ao meu olhar surpreso, ele explicou: - Estou pagando uma aposta. Durante um momento, pensei que o poço daria vazão inferior a 10 m3/h. Cheguei a apostar com o pessoal da perfuração. Mas, felizmente, perdi a aposta. Foi a primeira vez que vi alguém exultar por perder uma aposta. 33 - Não fui ao churrasco Não existe almoço de graça. Em minha mesa, havia um fax da Hidropoços, convidando-me para um churrasco na sexta-feira seguinte. Achei delicadeza de a empresa me fazer o convite, mas estranhei que não fosse feito pessoalmente ou por telefone. Telefonei para o Cleves acusando o recebimento e aproveitei para perguntar por que o convite fora feito por meio de fax e não informalmente. Ele respondeu que era para eu mostrar para minha esposa: - Como vai haver uma cervejinha, você pode precisar. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele completou: - O Celso vem de Alfenas para o churrasco. Fui para casa pensando no assunto. Afinal, a Hidropoços era representante das bombas Ebara e nós ainda não tínhamos feito concorrência para as bombas submersíveis dos poços. Seria correto eu comparecer a uma cervejada em uma empresa que participaria de uma concorrência que eu iria conduzir? Por outro lado, a recusa poderia parecer indelicadeza. Tive, então, uma ideia. Meu filho mais velho fazia engenharia mecânica e uma visita à Hidropoços poderia ser-lhe de utilidade. Além disso, havia a cervejinha, o que poderia ser um bom programa para ele e a namorada. Em casa, perguntei-lhe se queria me representar no churrasco, mas ele já tinha programa para a sexta. Então, a ideia de que me substituísse não deu certo. Na manhã seguinte, veio-me à mente uma ideia que poderia resolver o impasse. Telefonei para o Cleves e lhe disse: - Eu tenho um filho que se forma este ano em engenharia mecânica e gostaria que ele conhecesse a Hidropoços. Ele pode ir também? - Claro que sim! - Pois bem, então eu vou lhe pedir um favor. Vamos adiar essa visita. Ele não pode ir nesta sexta e acho que a ida à Hidropoços vai ser muito útil para ele. - Paulo, já está tudo preparado. Vamos assar uma carne! Percebi que a desculpa não colou muito. Procurei sair pela tangente: - Olha, Cleves, eu não vou prometer que irei. Mas gostaria que o convite ficasse de pé para eu ir algum dia com o Marcelo. - Claro que está de pé. Agradeci e desliguei o telefone. A questão estava resolvida. 34 - As bombas submersíveis Comecei a preparar a concorrência para a aquisição das bombas submersíveis. Telefonei para o Antônio Sérgio e pedi que ele me indicasse as empresas. Antes de qualquer outra, indicou a Leão e, orgulhosamente, disse que era seu representante comercial. - Antônio Sérgio – disse eu – quero você como consultor e não como alguém que eu tenha que fiscalizar. Ele entendeu e disse: - As empresas que perfuram poços artesianos representam bombas submersíveis. Chame as mesmas empresas que você convidou para apresentarem propostas de perfuração de poços. E acrescentou: - Não se esqueça da Hidromig. Ela não está associada a empresa de perfuração de poços, mas instala bombas submersíveis. Nas especificações técnicas, queria exigir que as empresas, além de fornecer a bomba, instalassem a tubulação de recalque até o reservatório de reunião. Antônio Sérgio me demoveu da ideia, dizendo que essas empresas, em geral, não lidam com instalação de tubulação. Aceitei a sugestão de que a tubulação deveria ser instalada apenas até o manômetro. Mesmo assim, essa exigência espantou a maioria das empresas e somente três aceitaram o convite: Hidromig, Hidropoços e Sondaco. Como havia somente três empresas e a lei exige que, em caso de convite, seja esse o número mínimo de concorrentes, fiquei com receio de que alguma delas desistisse e, na véspera, telefonei para cada uma delas para lembrar da abertura de propostas no dia seguinte. Ivan disse-me que não participaria, pois a Sondaco estava se especializando tão somente na perfuração de poços. Tive que abrir o jogo: - Se você não apresentar proposta, não vai haver concorrência. Apenas três empresas concordaram em participar. Felizmente, ele aceitou a ponderação e disse que mandaria alguém com a proposta. De fato, mandou. Mas deu um preço absurdo, sem risco de vencer. As outras duas propostas foram a Hidromig, que cotou pouco mais de vinte e oito mil reais, e a Hidropoços, que avaliou seu serviço em trinta e poucos mil reais. O prazo de execução também influiria no resultado final e o da Hidromig era, também, inferior. Proclamei a Hidromig como vencedora e fiz uma ata, que foi assinada pelos membros da comissão de licitação. Quando pedi aos concorrentes que também a assinassem, Cleves disse: - Um momento! Quero impugnar a proposta da Hidromig. Todos se voltaram para ele. Com a proposta vencedora nas mãos, ele disse: - A Hidromig cotou a bomba para 51 metros de altura manométrica e, no edital, a altura manométrica é de 51,85 metros. Começou um princípio de discussão entre ele e o representante da Hidromig. Sem saber o que fazer, eu disse: - Cleves, você vai formalizar seu pedido de impugnação e eu vou à Assessoria Jurídica para decidirmos o que fazer. Assim foi feito! Levei todos os documentos para minha sala e vi o grande abacaxi que tinha a mão: uma concorrência informal, feita por convite às empresas, recebia um pedido de impugnação! Consultado a respeito, Jorge, advogado da Petrobras, disse que a proposta estava irregular, visto que a empresa havia cotou bomba para elevar água até 51 metros e o edital exigia até 51,85 metros. Fiz o que sempre faço quando tenho problemas como esse. Esperei o dia seguinte para decidir com a cabeça mais fresca. Foi então que analisei o que eu havia colocado no edital: estava escrito que as bombas deveriam ter capacidade para elevar determinada vazão a determinada altura manométrica. Não pedi que ninguém especificasse modelo de bomba na concorrência, mas que apresentasse os modelos à fiscalização durante a execução das obras. Diante disso, não havia motivo para desclassificar a Hidromig. Voltei a conversar com Jorge e ele concordou comigo. Aceitei, então, a proposta da Hidromig, o que foi referendado pelos demais membros da comissão, começando a correr o período de cinco dias para ratificação da decisão. Nesse ínterim, recebi telefonema do Cleves dizendo-me ter sido injusto por não acatar o recurso. Se a Hidropoços tivesse especificado uma bomba de capacidade inferior a um preço mais barato, poderia ter vencido a concorrência. Expliquei-lhe que ninguém precisava apresentar os modelos das bombas durante a concorrência. O edital exigia, tão somente, que, ao serem instaladas, tivessem capacidade para conduzir a vazão indicada e para elevar a água à altura manométrica calculada. Antes de vencer o prazo, Cleves me deu outro telefonema para saber se o parecer da comissão havia sido aprovado. Como eu respondesse que ainda não havia decorrido o prazo legal para impetração de recurso, ele insistiu que a proposta da Hidromig deveria ser impugnada por oferecer bomba que não atendia ao edital. Eu lhe respondi que o assunto adquirira aspecto jurídico e não mais seria discutido sob o ponto de vista técnico. Vencido o prazo, pedi ao Henrique, chefe do Setor de Contratos, que redigisse um documento analisando as três propostas e indicando qual deveria ser a firma vencedora. O documento foi feito considerando vencedora a proposta da Hidromig. O assunto estava encerrado. Percebi, então, como eu estava certo em não ter ido ao churrasco da Hidropoços. Se tivesse ido, teria tido condições de agir com a firmeza com que agi? 35 - A sondagem do terreno O olho do dono engorda o gado. Iniciado o projeto executivo, a Pentágono me pediu a taxa de resistência do solo. Fui ao arquivo técnico, mas não encontrei nenhuma referência a serviços de sondagem fora da área da refinaria. Como disse, os poços artesianos foram perfurados em terreno da Petrobras, mas cedido em comodato a terceiro. Eu havia tido o cuidado de colocar nas especificações técnicas que o projeto estrutural seria feito pela empresa contratada. Como a sondagem era um dado necessário ao projeto estrutural, deveria ser desenvolvida pela própria projetista. A Pentágono não tinha um departamento para esse tipo de trabalho e, por isso, subempreitou os serviços. Para mim, era uma novidade fiscalizar a sondagem de uma obra e, por isso, transferi meu local de trabalho para lá, acompanhando passo a passo a percussão, a circulação do líquido, a coleta de amostras. O relatório da sondagem constatou que o terreno tinha boa resistência e, por isso, não necessitava de fundação profunda, do tipo estaca ou tubulão. 36 - Voltando ao prédio administrativo Um acontecimento mudou completamente o rumo dos trabalhos. Um contrato da área de automação industrial, que estava sendo conduzido pelo Setor de Acompanhamento de Processo, deu prejuízo à Petrobras. O empreendimento dos poços artesianos estava em situação semelhante. Embora estivesse sendo conduzido por mim, que estava no Setor de Acompanhamento de Processo, pelo organograma deveria estar sendo conduzido por alguém do Setor de Melhorias Operacionais. Em virtude disso, Ricardo me procurou e disse que eu deveria mudar de setor. Não foi essa a única complicação. Pelas normas não escritas da refinaria, qualquer projeto executivo deveria ser precedido de um projeto básico. Portanto, o contrato com a Pentágono deveria ser modificado: ao invés de projeto executivo, a empresa deveria fazer tão somente o projeto básico. Opus-me inteiramente a essa solução. Argumentei que a Pentágono já havia feito a sondagem e, também a topografia e, por isso, havia tido gastos. Propus-me, então, eu mesmo a fazer o projeto básico e sugeri deixar a Pentágono continuar com seu trabalho. Era a primeira vez que eu fazia um projeto básico e mal sabia como começar. Claudius me deu uma boa ajuda. Disse que o primeiro a fazer seria um memorial descritivo. Quando o concluí, disse que estava muito grande e acabei reduzindo-o de vinte para três páginas. Em seguida, era preciso preencher as folhas de dados: bombas, motores, etc. Especifiquei a bomba que levaria água do reservatório a ser criado até a unidade de cloração. Claudius e, também, a Elza, me ajudaram e o projeto foi concluído, juntamente com a revisão do orçamento. Em reunião conjunta dos dois setores, o projeto foi oficialmente passado para o Setor de Melhorias Operacionais. Dias depois, eu próprio iria para esse setor, voltando à minha sala no prédio administrativo. 37 – Revendo o orçamento O Setor de Melhorias Operacionais englobava o antigo Setor de Projetos, do qual eu fizera parte. Fui recebido pelo colega Sebastião, também engenheiro civil, que disse: - Parabéns! Sou testemunha de sua luta pela implantação dos poços artesianos. - Muito obrigado! – agradeci. - Ocorre que esse empreendimento está sem análise do valor. - É verdade. Quando foi iniciado, a análise do valor foi dispensada. - Entretanto, o orçamento inicial era de R$100.000,00. Agora está em R$209.000,00. Fiquei intrigado com a precisão dos números. Entretanto, se eu havia feito o projeto básico, poderia fazer também a análise do valor. O importante era que o empreendimento seguisse em frente. Organizou-se o grupo encarregado de fazer o trabalho. Sebastião indicou a mim como coordenador e ao Rui como facilitador. Este exigiu que os orçamentos estivessem completos. Como o projeto da Pentágono não estava pronto, o orçamento também não estava. Ele, então, disse que se encarregaria de fazer o orçamento das partes que faltava. Ao saber que a adutora seria em PVC, questionou, dizendo que, se fosse de ferro fundido, não haveria risco de vazamento. Expliquei que a ligação dos poços artesianos ao reservatório de reunião seria aérea e em ferro fundido. Do reservatório de reunião aos reservatórios elevados existentes, seria enterrada e em PVC. A primeira etapa da análise do valor é o chamado “brain storming” em que qualquer membro da equipe pode dar palpite sobre as soluções adotadas. Os palpites foram principalmente sobre as adutoras. Houve quem dissesse que o ferro fundido é muito quebradiço e, por isso, a adutora aérea não poderia usar esse material. Outro questionou a adutora enterrada, pois geraria custos de escavação. Terminada a reunião, procurei Miguel, que trabalhara na Copasa, para responder sobre os diversos questionamentos sobre a adutora de ferro fundido. Ele disse que esse era o material normalmente usado por aquela estatal, eliminando a ideia de que fosse quebradiço. Desse modo, foi mantida a especificação que eu havia feito no contrato da Pentágono e Rui orçou o empreendimento total em R$462.000,00, mais do dobro do valor trazido à análise do valor. 38 - O PDV Quando eu trabalhava na Caixa Econômica Estadual, certa vez foi feito o pagamento a mais para dois funcionários da Santa Casa de Misericórdia. Chamamos o contador do hospital, explicamos o problema e ele transformou o pagamento feito a mais em adiantamento de salário. Ao ir para o Setor de Melhorias Operacionais, passei a ocupar a mesa que usava antes de me transferir. Observei, no entanto, que alguns colegas não se encontravam. Perguntei pelo Carlos, pelo Daniel e pelo Edno, mas todos haviam-se aposentado. Mais tarde, encontrando-me com o primeiro, indaguei por que não havia esperado a aposentadoria integral, ao que ele respondeu: - Com o risco de demissões, preferi garantir minha aposentadoria! De fato, havia um cochicho de que, com o fim do monopólio do petróleo, a Petrobras teria que fazer ajustes em seu quadro de pessoal e algumas demissões já estavam acontecendo. Uma delas me havia intrigado muito: um colega recebeu o salário duas vezes. Quando foi comunicado para devolver o dinheiro recebido a mais, informou que já havia gasto parte dele. A meu ver, a solução seria transformar o erro num adiantamento salarial, a ser descontado parceladamente nos meses seguintes. O Setor de Pessoal optou por uma solução diferente: o colega pagaria as prestações ao receber os salários seguintes. Como ele não honrou o compromisso, foi demitido. No afã de reduzir o quadro, nós, os anistiados políticos, fomos convocados para uma reunião em que foi apresentado um plano de demissão voluntária, o popular PDV: pediríamos demissão e, em troca, receberíamos cinco salários, podendo sacar o fundo de garantia. Ao final da reunião, perguntei aos colegas se aceitariam o plano. Todos disseram que sim. Afinal, já eram aposentados e deixariam o emprego recebendo uma “bolada”. Um deles me disse que, se recusássemos, não ficaríamos na Petrobras. Dos que estavam na reunião, eu fui o único que recusou. Não havia para mim risco de demissão imediata, visto que eu era membro da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e, por isso, tinha estabilidade por até um ano após o fim do mandato. Parece que já contavam certo que eu aceitaria o plano: almoçando com o Ricardo, ele me perguntou se o empreendimento dos poços artesianos seria suspenso. Eu disse que não sabia de nada. Ele me contou que o Claudius havia sido convocado para uma reunião àquela tarde no meu setor, onde se debateria a paralisação dos serviços relacionados aos poços artesianos. 39 - Salvando o empreendimento De fato, havia uma reunião marcada para se discutir a paralisação do empreendimento e eu fui comunicado momentos antes. A pauta era exatamente essa: com o orçamento elaborado na análise do valor, os trabalhos seriam interrompidos até que o superintendente se decidisse a respeito. Era evidente que se pretendia a suspensão definitiva do empreendimento, apesar dos custos já realizados. Voltou-se a discutir sobre a compra de água da Copasa. Felizmente, o Claudius estava presente e mostrou que o custo de água cobrado pela Copasa para grandes investidores tornaria a medida inviável se comparada com o uso de água subterrânea. Sugeriram, então, que se efetivasse o consumo de água mineral. Levantei-me da reunião para perguntar ao encarregado do restaurante pelo custo dos copos de plástico. Enquanto isso, Claudius lembrava que a água potável não era apenas para bebida, mas também para banho, para os aparelhos de lava-olhos e para se escovar os dentes. Quando retornei com o preço pago pela Regap para os copos de plástico, a reunião foi encerrada, ficando eu encarregado de concluir o relatório da análise do valor para ser entregue ao chefe de divisão, que não se encontrava presente. Quando o procurei, o chefe de divisão já tinha uma resposta pronta: com o novo valor, seria necessário levar a proposta ao superintendente e, no dia seguinte, fui comunicado de que ele havia mandado parar o empreendimento. Não havia nem como falar com ele, pois estava saindo de férias. Percebi a necessidade de agir rápido antes que a paralisação se tornasse definitiva. Mandei uma mensagem eletrônica ao meu chefe lembrando que o custo anual de água mineral totalizava R$156.000,00, um terço do valor estimado para o empreendimento que, portanto, se pagaria em três anos. Lembrei, também, que boa parte do orçamento já havia sido realizada, ou seja, representava o chamado “custo afundado”. Se o empreendimento fosse paralisado, não haveria como recuperá-lo. Minha mensagem deu resultado. No dia seguinte, meu chefe me comunicou que a Elza havia ficado encarregada de fazer um estudo econômico do empreendimento. Fui ao meu antigo setor me informar a respeito e encontrei Claudius consultando catálogos sobre tubos de polietileno de alta resistência, pois, segundo ele, se especificássemos tal material, baratearíamos o custo total. Para mim, o PVC seria mais barato que o polietileno e convidei o representante da Tigre a ir à Regap falar do produto. Ele foi e, indagado sobre a possibilidade de usarmos PVC na adutora de recalque, disse que não haveria problema. Sua resistência à pressão ia a até 10 kgf/cm2 e, pelos cálculos da Pentágono, a pressão máxima de trabalho seria de 9,86 kgf/cm2. Procurou deixar claro que, apesar de os valores serem próximos, a resistência do PVC era calculada com o uso de um coeficiente de segurança, pois a pressão de ruptura era bem superior a 10 kgf/cm2.Quanto ao polietileno, a Tigre também o fabricava, mas ele não o recomendava porque o preço era muito mais alto, de vez que usava mão de obra muito especializada. Baseando-me em suas informações e considerando que seria projetada uma válvula de alívio desviando a água para a estação de tratamento sempre que a pressão aumentasse de forma significativa, não tive dúvida em manter o PVC, com diâmetro equivalente de ferro fundido, conforme especificado. Levei essas informações ao meu chefe e recebi uma boa notícia: Elza concluíra seu estudo econômico dizendo que o empreendimento era viável. Diante disso, fui autorizado a fazer a requisição de material, mesmo com o destino do empreendimento indefinido, pois seria mais fácil cancelar o pedido que preparar um novo. Embora já não fosse mais meu chefe, Ricardo me disse que eu seria o primeiro a saber tão logo fosse autorizada a retomada do empreendimento. Saí, em seguida, de férias. Foi ótimo que o empreendimento estivesse paralisado. Assim, pude descansar a mente. Se as obras estivessem em andamento, seria possível que, a bordo de navio para as Bahamas com minha esposa, eu estivesse com a cabeça em algum detalhe que houvesse ficado pendente. Ao retornar das férias, tive uma notícia ótima: em reunião com os chefes de divisão, o superintendente fez constar em ata que o empreendimento dos poços artesianos passava a ser prioritário para a refinaria. Agora que o trabalho era considerado prioritário, sua coordenação passou a ser cobiçada e o Sebastião havia sido escolhido para coordenar o empreendimento. Havia outras notícias: o projeto da Pentágono estava concluído e o Jairo estava trabalhando na especificação da licitação para sua execução. Por outro lado, o contrato com a Hidromig ainda não havia sido assinado e coube a mim gerenciá-lo. A nova situação tinha um lado positivo: todos queriam agir em favor e não contra o empreendimento. Por outro lado, havia um lado negativo: havia muita gente envolvida e eu tive que agir com muita habilidade para não ferir suscetibilidades. 40–Contratação dos serviços de eletricidade Antes de me transferir de setor, comentei com o Claudius que precisaríamos de levar eletricidade até o local dos poços e ele se ofereceu para fazer o projeto básico de eletricidade. Achei a ideia muito boa, pois ele estava bastante interessado no empreendimento dos poços artesianos. Sabendo que, em Sete Lagoas, o abastecimento de água era feito exclusivamente por poços artesianos, convidou-me para irmos até lá conhecer o sistema. Em Sete Lagoas, enquanto Claudius levantava dados para o projeto de eletricidade, eu verificava, admirado, como poços tão próximos uns dos outros tinham tão alta vazão. Quando assinamos o contrato com a Pentágono, Claudius passou para a empresa as diretrizes para a realização do projeto executivo. Com minha transferência para o Setor de Melhorias Operacionais, a fiscalização do projeto de eletricidade ficou a cargo do Raimundo, engenheiro eletricista. Segundo ele, parte das orientações fornecidas à Pentágono estava em desacordo com as diretrizes adotadas na refinaria. Diante disso, convoquei uma reunião com a Pentágono, onde passei as informações que recebi do Raimundo. Dias depois, recebi um telefonema do Fernando, preposto do contrato, informando que foram atendidas 95% das ressalvas, mas que 5% foram mantidas por terem sido objeto de acordo anterior. Passei as informações ao Raimundo, que fez um laudo do projeto ratificando todas suas ressalvas anteriores. Percebi que o assunto caminhava para um impasse, com quebra de relacionamento entre a contratada e a Regap. Telefonei, então, para o dono da Pentágono para aparar as arestas. Pelo telefonema, fiquei sabendo qual era a causa da desavença. O setor tinha uma equipe de projetistas contratada à Seebla, empresa concorrente da Pentágono na elaboração de projetos. Um dos projetistas, especialista em eletricidade, era assessor do Raimundo e fora ele que verificara os desenhos. Desse modo, havia a impressão de que a Seebla estava fiscalizando a Pentágono. O impasse continuava e o contrato precisou ser renovado. Foi, então, que Raimundo teve a ideia de sua própria equipe fazer as revisões que ele julgava necessárias. Pensei que o assunto estava resolvido, mas o chefe do setor me disse que iria descontar da Pentágono as horas empregadas pelos projetistas da Seebla na revisão do projeto. Feito o cálculo do desconto, a Pentágono não receberia nada. Protestei e, ao final, consegui que ele voltasse atrás. Mauro, coordenador de projetos do setor, disse-me que a contratação dos serviços de Engenharia Elétrica deveria ser feita antes mesmo de o projeto ficar pronto e, por isso, havia pedido ao Edson para agilizar a especificação. Percebi que a agilidade na contratação era consequência de o empreendimento ter sido considerado como prioridade da refinaria. Lendo a especificação, verifiquei que havia um item considerando que o preço dos testes de funcionamento deveria ficar em 20% do preço total da obra. Esses testes eram baratos e a taxa elevada era uma espécie de garantia de que os serviços seriam concluídos. Protestei contra isso. Afinal, havia compra de transformadores, de postes e de materiais caros. Uma retenção de 20% para o final da obra obrigaria as empresas licitantes a rever suas composições de custo. Ao final, entramos em acordo e fixamos o custo dos testes em 10% do valor total do contrato. Realizada a concorrência, a primeira colocada não observou esse detalhe e cotou os testes a um valor abaixo de 10% do valor global da obra e, por isso, foi desclassificada. Venceu a segunda colocada, a empresa Lufi, do João Paulo. 41 - A adutora Todo goleiro diz que é preciso, também, ter um pouco de sorte. Paralelamente aos trabalhos relativos ao abastecimento de água por poços artesianos, seguia a execução do projeto de substituição da rede de água potável da refinaria. Conforme foi dito, a tubulação estava sendo substituída por PVC, com diâmetro equivalente de ferro fundido, o que facilitaria sua junção com as redes internas dos prédios, que seriam mantidas. Ocorre que as redes internas eram, em sua maioria, de ferro galvanizado. Ao se fazer a conexão com o PVC, muitas delas tiveram vazamento. Quando o processo de compra do material da adutora foi às minhas mãos para dar parecer técnico, verifiquei que a Marial classificou-se em primeiro lugar e a Tigre em segundo. Comentei com colegas sobre isso e, no mesmo dia, fui procurado pelo chefe do setor, que disse ter marcado uma reunião com o pessoal do Setor de Suprimento à qual eu deveria comparecer com o objetivo de desclassificar a Marial por razões técnicas. Para aumentar a pressão, o representante da Tigre telefonou dizendo que sua empresa estaria disposta a vender o material por um preço inferior ao da primeira colocada. Fui para casa pensando no assunto. Seria fácil ceder à pressão, desclassificar a Marial e indicar a Tigre como vencedora, considerando que ofereceria preço inferior ao da primeira colocada. Entretanto, isso, além de ilegal, era tremendamente injusto. A Tigre havia perdido a concorrência e a Marial parecia ser uma empresa com a mesma respeitabilidade. No entanto, não podia bater de frente (mais uma vez) com a chefia. Na reunião com o Setor de Suprimento, foi dada a informação de que não nos cabia escolher a empresa vencedora, mas apenas dar parecer técnico sobre as propostas apresentadas. Ao final da reunião, ficou estabelecido que Renato e eu verificaríamos se havia algo que desabonasse a Marial. Telefonei, então, para o Antônio Sérgio, o qual me disse haver várias empresas novas comercializando tubos e conexões de PVC, algumas delas muito boas. Sugeriu que eu pedisse à Marial atestados recentes de empresas que haviam comprado seus tubos e conexões. Foi o que fiz, tendo recebido atestado da Copasa e da Saneago, empresa de saneamento de Goiás. De posse dos documentos, telefonei para o Renato, que me disse não haver qualquer informação desabonadora à Marial. Diante disso, comuniquei o que havia sido resolvido ao chefe do setor, que concordou que a empresa fornecesse o material. Assinado o contrato para o fornecimento da tubulação, tive, mais uma vez, a comprovação de como a prioridade dada ao empreendimento dos poços artesianos estava surtindo efeito. Jairo, incumbido de acompanhar a construção do reservatório de reunião e da adutora, deu sinal verde para começar a escavação necessária ao assentamento da tubulação. Já havia cerca de 300 metros de tubulação escavados e a Marial ainda não havia entregado os tubos. Telefonei para sua sede para saber quando a remessa seria feita, mas fui informado de que a empresa não conseguiria entregar o material no prazo estipulado. Diante disso, telefonei para o Setor de Suprimento, o qual me garantiu que o contrato seria rescindido, com aplicação da multa prevista, sendo convocado o segundo colocado, a Tigre. O contrato com a Tigre ainda não havia sido assinado e as valas já estavam abertas. Felizmente, não estávamos no período de chuvas, porque, do contrário, as perderíamos. Foi, então, que recebi uma informação interessante: Rui, que havia sido o autor do orçamento que provocara a paralisação do empreendimento, disse-me que, passando pela unidade da BR Distribuidora próxima à Regap, vira uma enorme quantidade de tubos que poderiam ser usados na adutora. Peguei um carro e dirigi-me à BR, verificando que havia no depósito mais de 200 metros de tubos de ferro fundido de diâmetro 150 mm e que esse material, que havia sobrado de uma obra, seria vendido como sucata. Retornando à Regap, comuniquei ao Setor de Suprimento o que havia apurado. Por sorte, o contrato com a Tigre ainda não havia sido assinado e os tubos foram enviados à Regap, reduzindo-se a quantidade correspondente do contrato de fornecimento dos tubos de PVC. Lembrei-me de quando fiz a especificação do diâmetro da tubulação e, sem uma razão aparente, optei por 150 e não por 200 mm, visto que ambos os diâmetros atendiam às condições operacionais. A utilização de tubos de ferro fundido resolvia, inclusive, o problema da proximidade da pressão de serviço com a pressão de resistência da tubulação: 9,86 e 10 kgf/cm2, respectivamente. Usando-se cerca de 200 metros de tubos de ferro fundido no trecho inicial da adutora, onde a pressão seria máxima, trabalhávamos a favor da segurança. 42 - Quebra de paradigma Conforme foi dito, o poço que recebeu o número 2 tinha a maior das vazões e, por isso, precisou de uma tubulação de recalque com maior diâmetro: 4 polegadas, enquanto o diâmetro das demais era de apenas 3 polegadas. Ora, a tubulação externa dos poços, conhecida como “camisa”, tinha 6 polegadas de diâmetro. Dentro dela deveria caber a tubulação de recalque e um tubo destinado a medir o nível de água do poço, comumente com ¾ de polegada de diâmetro. Guilherme, da Hidromig, sugeriu que reduzíssemos o diâmetro da tubulação de recalque para 3 polegadas, de modo a evitar o risco de que uma das duas tubulações se chocasse contra a parede. Acontece que, diminuindo a tubulação de recalque, a vazão seria automaticamente diminuída. Eu não queria que isso acontecesse com o melhor de nossos poços. Guilherme tentou contemporizar. Usaríamos o diâmetro da tubulação dentro do poço com 3 polegadas e, na saída do poço, o aumentaríamos para 4 polegadas. Eu não queria ceder. Minha experiência como professor de hidráulica me dava a certeza de que a perda de carga no interior do poço e, consequentemente, a redução da vazão, seria muito grande. Perguntei, então: - Por que não diminuirmos o diâmetro da tubulação de nível para ½ polegada? Para se medir nível, a redução do diâmetro não vai afetar a leitura. Ainda assim, ele não estava satisfeito. Argumentou que a tubulação teria luvas e, se esbarrasse na parede do poço, não haveria como continuar a fazê-la descer. Sebastião, que estava conosco, acostumado com o “brain storming” das análises do valor, sugeriu: - Por que não usamos uma mangueira como tubulação de nível? Era uma proposta razoável, mas Guilherme disse que a mangueira não tinha rigidez suficiente para descer reta até o fundo do poço. Sugeriu, então, que usássemos nível de pedreiro, tubulação com diâmetro mais reduzido. Foi uma quebra de paradigma que poderá ser útil em situações semelhantes. 43 - A catenária Um de meus primeiros trabalhos quando fui para o então Setor de Projetos foi projetar uma nova portaria para a refinaria. O superintendente recomendou que, por se tratar de passagem obrigatória de todos os visitantes, não poderia ter pilares, mas colunas. Quando o projeto foi para execução, o fiscal de obras me disse que a empreiteira não sabia como fazer uma forma redonda para a coluna. Não tive dúvidas e respondi: - Use um tubo de PVC. O empreendimento dos poços artesianos estava sob a coordenação do Sebastião e foi levado a ele o seguinte problema: um dos cabos da rede elétrica havia ficado em um ponto com altura inferior à altura mínima prevista em norma técnica. Sebastião me disse que se tratava de um problema de projeto e, portanto, eu deveria entrar em contato com a Pentágono para que a empresa fizesse a correção. Telefonei para o Fernando, mas este me disse que o cálculo da catenária (como é chamada a curva que os cabos fazem pela ação da gravidade) havia sido calculada pela própria Petrobras. Percebi que teríamos dificuldade em descobrir o responsável pelo erro e, enquanto isso, a obra ia se atrasando. Sugeri, então, que se pusesse um poste debaixo do ponto mais baixo da curva, elevando-se os cabos de forma a se respeitar a altura mínima necessária. O engenheiro da empreiteira concordou em colocar um poste a mais, mas advertiu para o prazo da obra. A colocação desse poste implicaria escavação, execução das formas de fundação, colocação da ferragem, concretagem, espera pelo período de desforma, desforma e reaterro. Disse que poderíamos pular algumas dessas etapas com uma modificação simples: ao invés de fundação direta, usaríamos tubulão armado, tendo como forma um tubo de concreto, que ficaria perdido. A contratada aceitou a solução e eu fui para o computador revisar o desenho, incluindo um poste com o apoio sobre tubulão armado, tendo este como forma um tubo de concreto de 90 cm de diâmetro. Mais tarde, passando pela área onde seria feito o serviço, vi um tubo de concreto de 1 metro de diâmetro sobre o terreno. Perguntei a quem pertencia o tubo e me disseram que era da Lufi. Telefonei para o João Paulo e perguntei se ele não queria ceder aquele tubo. Ele respondeu que não poderia cedê-lo, mas que o venderia. Pedi, então, que ele entrasse em contato com a empreiteira que estava fazendo a linha de transmissão. Se o tubulão de diâmetro 90 cm era suficiente, também o seria um tubulão de maior diâmetro. Desse modo, fui para o computador e fiz nova revisão no desenho, dessa vez aumentando o diâmetro do tubulão para 1 metro. O Sebastião me viu passando a documentação para o engenheiro da empreiteira e me perguntou a quem caberia a responsabilidade em caso de insucesso: a nós ou à empreiteira. Respondi para ambos: - Isso aqui é uma parceria. Se houver sucesso, bom para todos. Se houver insucesso, ruim para todos. Acompanhei o serviço com certa apreensão. Embora o tubulão armado fosse mais seguro que a sapata armada, a única vez que havia trabalhado com rede elétrica havia sido vinte e dois anos antes, na linha de transmissão que liga Curitiba à foz do rio Areia e, por isso, eu queria ter certeza de que tudo correria bem. Quando a fundação ficou pronta, o poste foi colocado, os cabos de transmissão foram elevados de modo que todos seus pontos obedecessem à altura mínima especificada em norma e a catenária se desenhou bonita sobre o terreno, enviei uma mensagem eletrônica a meu chefe relatando o ocorrido e dizendo que o problema estava solucionado. Fiquei surpreso porque, ao invés de me responder, ele enviou uma mensagem de congratulações ao Sebastião. Estava ficando cada dia mais evidente que minha relação com a chefia estava muito ruim. 44 - O furto da tampa do poço Há males que vêm para bem. Os trabalhos estavam indo de vento em popa. O material para completar a adutora havia chegado e o reservatório de reunião estava quase pronto. Para colocarmos em funcionamento o novo sistema de água potável da Regap, faltava apenas a ligação dos poços a esse reservatório. A Lufi estava esperando fazer essa ligação para cercar os poços, como previsto no projeto da Pentágono. Foi, então, que tive a ideia de fazer uma inspeção nos poços artesianos. Afinal, desde que a Hidromig instalara as bombas submersíveis, eu não havia voltado lá. Peguei o carro do setor e dirigi-me ao poço nº 5, o primeiro a ser feito e cuja vazão somente havia aumentado após mais de 100 metros de perfuração. Chegando lá, tive uma surpresa: como o poço ainda não havia sido cercado, sua tampa havia sido furtada. Regressei imediatamente à Regap e telefonei para o Setor de Suprimento pedindo urgência na aquisição de uma tampa para um poço com 150 mm de diâmetro. Acontece que o setor jamais havia feito uma compra desse tipo e não sabia qual empresa contatar. Telefonei, então, para a Geosol, que havia perfurado o poço, e perguntei quanto custaria a tampa. Disseram-me que eu poderia mandar buscá-la sem qualquer custo, bastando que houvesse em estoque. Entretanto, a verificação se havia em estoque somente poderia ser feita após o almoço. Como era uma sexta-feira, eu não poderia correr o risco de deixar o poço destampado durante todo o final de semana. Telefonei para a Sondaco e o Ivan me disse que não tinha o material em estoque, mas que a Hidropoços certamente o teria. Telefonei, então, para a Hidropoços, sendo informado de que a empresa possuía essa tampa em estoque e poderia vendê-la ao preço de R$25,00. Entrei em contato com o Setor de Suprimento, que, apesar de fazer a compra em caráter de urgência, somente entregou-a pouco antes das quatro horas da tarde. Como o expediente na refinaria se encerrava às quatro e meia, eu dispunha de pouco mais de meia hora para desinfetar o poço, tampá-lo e retornar à refinaria para pegar o ônibus de volta a Belo Horizonte. Para ganhar tempo, pedi ao próprio motorista que me levara a tampa para ir comigo ao armazém buscar hipoclorito de sódio para desinfetarmos o poço antes de tampá-lo. No armazém, tive uma surpresa. Todos os galões com o desinfetante que eu queria eram de 100 litros. Como as pessoas já haviam se retirado para o banho, seria impossível que eu e o motorista conseguíssemos colocar o galão no carro. Procurei por um recipiente limpo em que pudéssemos colocar um pouco do produto, mas não encontrei. Foi quando o motorista me chamou a atenção para um rapaz que estava manobrando uma empilhadeira. Pedi a ele que colocasse o galão na empilhadeira e nos seguisse em direção ao poço. Chegando lá, nós três viramos o galão na boca do poço, antes de tampá-lo. Talvez por ser de uma empresa diferente, a tampa não se encaixou devidamente, mas conseguimos fazer a vedação. Estávamos prontos para ir embora, quando a empilhadeira atolou. Já passavam das quatro e meia e eu já havia perdido o ônibus. Combinamos, então, o seguinte: o motorista voltaria à refinaria para comunicar o fato e o operador da empilhadeira e eu ficaríamos aguardando. Passou-se meia hora e ele não voltou. Pensamos que a Seção de Transportes o havia designado para outro trabalho. Mais tarde, vim a saber que ele não havia conseguido obter socorro. Que pena que ainda não tínhamos celular! A solução era deixar a empilhadeira no local e ir caminhando até a refinaria. Por sorte, Manuel, o comodatário do terreno, ia passando em sua caminhonete e nos deu uma carona até a refinaria, onde fiz o registro da ocorrência. Na segunda-feira, pela manhã, o chefe do Setor de Segurança Patrimonial procurou-me para pedir informações sobre a ocorrência. Expus-lhe o ocorrido e, ao final, ele disse que haviam furtado a bateria da empilhadeira. Ao invés de discutir o furto, preferi chamar a atenção para a falta de segurança do local: - Você não acha que é necessária uma maior vigilância da área? - Você já me tinha falado nisso e eu orientei um vigilante a passar por lá todas as noites. - Acontece que ocorreram dois furtos no mesmo dia. Você não acha que é necessária uma vigilância maior? - A tampa não foi furtada na sexta. O Manuel nos contou isso uma semana antes. Havia uma semana que o poço estava sem tampa! Como eu havia acertado em colocar o hipoclorito de sódio! Reclamei de não ter sido avisado do furto da tampa do poço. Curiosamente, eu, que fora procurado para dar explicações sobre o ocorrido estava cobrando maior empenho da vigilância. Ele se foi prometendo contratar um vigilante apenas para a área dos poços artesianos. Mas o problema não terminou aí. Como as obras dos poços artesianos não haviam sido divulgadas – e eu achava prudente que fosse assim – suspeitaram de que a empilhadeira estivesse a meu serviço pessoal. Foi criada uma comissão de inquérito para verificar os motivos pelos quais a empilhadeira fora encontrada fora da refinaria e sem a bateria. A peça acusatória iniciava-se perguntando o que a empilhadeira estava fazendo fora da refinaria e dizia que ela poderia ter sido lançada na represa de Palmeiras. Encontrando um dos chefes de divisão, este me antecipou o resultado esperado para o parecer da comissão: eu teria que pagar uma bateria nova. Percebi que, com um pouco de habilidade, poderia usar essa mesma comissão para chamar atenção para a falta de segurança nos poços artesianos. Iniciei minha defesa questionando não apenas o furto da bateria, mas, também, o furto da tampa do poço, com possíveis consequências muito mais drásticas para o público da refinaria. Ironizei a afirmação de que a empilhadeira poderia ter sido lançada na represa. Afinal, seriam necessárias pelo menos doze pessoas para, primeiramente, desatolá-la e, depois, para empurrá-la até a represa, num serviço penoso e sem nenhuma utilidade prática para elas. Além disso, conseguir juntar doze pessoas para fazer tal coisa, sem que nós da refinaria tomássemos conhecimento, seria a prova cabal de que estávamos construindo nosso sistema de captação de água potável sem nenhuma segurança contra furto ou atos de vandalismo. Para dar maior destaque à falta de segurança local, concluí dizendo que, apesar de a empilhadeira não ter sido lançada na represa, teve sua bateria furtada. Isso fez com que a comissão percorresse toda a área dos poços artesianos e acabasse não apenas por inocentar o operador da empilhadeira e a mim, ambos citados na peça acusatória, como ainda nos teceu elogios pela forma como agimos para tentar resolver o problema. Também foi inocentado o pessoal da segurança patrimonial, que foi incluído na investigação. Por fim, ao invés de exigir o pagamento da bateria, o relatório final recomendava maiores medidas de segurança para a área. 45 - O sistema entra em operação No dia 27 de abril de 1998, o novo sistema de água potável da Regap entrou em operação. Os bebedouros não foram liberados porque necessitavam de manutenção. Fui convocado para uma reunião no Setor de Utilidades, onde comuniquei que o sistema estava funcionando adequadamente. Um dos membros do setor alertou, no entanto, para o que chamou de “mortalidade infantil”, ou seja, equipamentos novos frequentemente apresentavam defeitos. Lembrei-me de meu compromisso com a Rosângela de lhe dar entrevista tão logo o sistema entrasse em operação. No entanto, atento ao que dissera o colega do Setor de Utilidades, sugeri que, antes da publicação na revista, ela fizesse uma nota no boletim da refinaria comunicando que o sistema estava em pré-operação para teste dos equipamentos e que os bebedouros somente seriam liberados após a limpeza da tubulação. Havia outro teste importante a ser feito: as vazões dos cinco poços artesianos, os quatro que perfuramos e mais o “herdado” da Copasa, seriam suficientes para o consumo humano da Regap? Em virtude disso, pedi que Rosângela colocasse no boletim uma nota recomendando evitar o desperdício de água. Pedi que informasse, também, que a adutora que recebia água dos poços artesianos tinha uma derivação para a estação de tratamento de água, de modo que, se houvesse disponibilidade, poderia contribuir para a melhoria da qualidade da água industrial. Finalmente, ela deveria dizer que a água era retirada de lençóis cativos, situados na rocha, e, portanto, a qualidade da água era apropriada ao consumo humano. A nota saiu no boletim nº 1670, de 4 de maio. Fiquei atento a qualquer problema operacional que surgisse. Tudo funcionou a contento. Entretanto, acompanhando o consumo diário de água, verifiquei que estava maior do que eu esperava. Resolvi, então, fazer um teste: pedi ao Setor de Utilidades que fechasse o fornecimento de água durante algumas horas na madrugada e verificasse o nível dos reservatórios no início e no final do teste. Quando, no dia seguinte, telefonei para o Setor de Utilidades para saber o resultado do teste, tive uma surpresa desagradável: o nível dos reservatórios baixou mesmo sem haver consumo de água. Isso indicava que estava havendo vazamento. Como a rede de distribuição havia sido substituída, a perda de água deveria estar acontecendo no interior dos edifícios. Entretanto, tive que adiar a verificação dos vazamentos de água porque fui designado para outra atividade. 46 - O planejamento estratégico da refinaria O engenheiro Manfredo foi designado para elaborar o planejamento estratégico da Regap. Entendeu que uma das medidas a serem tomadas seria verificar o que as pessoas (que ele chamou de atores externos) pensavam da refinaria. Preparou questionários para orientar entrevistas a serem feitas com pessoas da comunidade, tais como empresários, gerentes de banco, líderes comunitários. Para fazer as entrevistas, pediu aos diversos setores que indicassem pessoas para comporem uma equipe. Eu já o conhecia das viagens de ônibus de volta a Belo Horizonte, em que ele me explicara o trabalho em que estava envolvido. Lendo sua proposta, fiz certas observações na redação, que muito o agradaram. Por isso, ele me indicou para representar meu setor na equipe de trabalho. Fizemos entrevistas até no Rio de Janeiro, procurando ouvir o que as pessoas da sede da Petrobras pensavam da Regap. Depois de juntarmos as respostas, ajudei-o a fazer a redação final. Ele ficou entusiasmado com o texto e disse que faltava um detalhe. Era preciso entregar o trabalho ao grupo de chefes de divisão da refinaria, tendo marcado um encontro para a semana seguinte no Esporte Clube Ouro Negro, clube dos funcionários da Regap. Para ir com ele entregar o relatório e discutir com os chefes de divisão seu conteúdo, ele contava com minha presença. Achei ótimo aquele convite. Eu suspeitava que houvesse certa antipatia para comigo por parte da chefia da Regap e encarei esse encontro como uma oportunidade de verificar se minha suposição era verdadeira e, se confirmada, verificar uma maneira de aparar as arestas. Não precisei me programar para tal evento. Dias depois, ele me procurou e, muito sem jeito, disse que eu não deveria comparecer ao encontro. Poupei-o de entrar em detalhes sobre os motivos pelo qual eu estava sendo desconvidado. Quem me colocaria melhor a par da situação que eu vivia na refinaria foi um colega meu de fora da Petrobras, que ligou para mim à noite e disse sem rodeios: - Preciso falar com você urgente e precisa ser pessoalmente! Combinei com ele encontrarmos no centro espírita para o qual eu iria naquela noite. Ao chegar, ele já estava me esperando e foi direto ao assunto: - Estou sabendo de fonte segura que você vai ser demitido da Petrobras! 47 - Verificando vazamentos Se a vida lhe der um limão, faça dele uma limonada. O colega não explicou por que eu seria demitido. Entretanto, mencionou que eu havia “forçado” a adoção de poços artesianos na Regap. Se fosse verdade o que dissera o colega, de todas as demissões, a minha seria a mais curiosa: seria demitido por ter “forçado” a solução de um problema que era crônico na Regap: a água potável para os funcionários. Felizmente, a notícia não era verdadeira. Eu ainda era estável, devido a minha participação na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Por isso, guardei o recado sem que isso me perturbasse o sono. O colega, no entanto, não estava de todo errado. Alguma coisa devia ter ocorrido, pois meu chefe me procurou dizendo que eu estava transferido para a Divisão de Manutenção, no Setor de Equipamentos Estáticos - SEST, unidade que estava sendo criada por desmembramento de outro setor. A justificativa para minha transferência, segundo ele, é que o setor em que eu estava já tinha um engenheiro civil. Seria verdade? Fui um pouco aborrecido para o novo setor, mas logo percebi que me poderia ser de grande utilidade. Os reservatórios de água potável estavam constantemente com nível baixo e isso era devido não apenas ao consumo, mas, também, aos vazamentos na rede interna dos prédios. Eu havia passado perto do almoxarifado e me deparado com um grande vazamento. Contatei o Setor de Serviços Gerais e eles fizeram a substituição dos tubos galvanizados por PVC. Como havia esse vazamento, certamente havia outros. Ao perguntar ao Geraldo, que havia sido designado para a chefia do setor, quais seriam minhas atividades, ele disse que eu continuasse a fazer o que estava fazendo. Entendi que seria carta branca para que eu pudesse pesquisar os vazamentos na rede de distribuição de água. Nos primeiros dias, vi colegas tentando conter um grande vazamento na rede nova. Para isso, no entanto, precisariam parar o abastecimento a jusante o que, conforme o tempo necessário, impediria o banho dos operadores. Percebi que esse vazamento somente poderia ser contido por uma empresa especializada que fizesse o serviço no intervalo entre dois turnos de operação. Entrei em contato com a Copasa e um antigo colega me deu o nome de três empresas que faziam obras para essa estatal. Quando preparava a concorrência, percebi outro grande vazamento, desta vez defronte ao prédio onde passei a trabalhar. Como se tratava da rede antiga, entendi que o Setor de Serviços Gerais poderia resolver esse assunto. Como teríamos que cortar a água do prédio para reparar a rede nova, entendi que seria conveniente fazermos os dois reparos simultaneamente em um sábado, no período entre oito da manhã e quatro da tarde. Um funcionário do Setor de Utilidades foi destacado para dar apoio aos serviços e eu lhe recomendei que ficasse atento ao nível dos reservatórios para evitar transbordamento. Pela primeira vez, desde que o novo sistema de água potável entrou em funcionamento, as bombas tiveram que ser desligadas porque os reservatórios chegaram próximo ao nível máximo. Os trabalhos terminaram pontualmente às quatro horas da tarde, quando alguns operadores já me telefonavam perguntando se a água seria liberada para o banho. Ambos os vazamentos foram contidos. O sucesso da intervenção me animou a continuar a pesquisar vazamentos na rede de água potável. 48 - Considero concluído o novo sistema de água potável Percebi que não conseguiríamos identificar visualmente todos os vazamentos. Assim, achei por bem contratarmos serviços de ultrassom para encontrá-los. Eu havia tido uma experiência ruim com a geofísica e esperava obter melhor resultado com o ultrassom. Assim, convenci o Geraldo a assinar contrato com uma empresa do ramo. Como o valor pedido era inferior a R$7.000,00, não havia necessidade de licitação. No dia em que a empresa foi assinar o contrato, Dr. Julizar comunicou que o Ambulatório Médico estava sem água. Levei o contratado até lá e ele identificou onde estava o vazamento. A equipe do Setor de Serviços Gerais escavou e constatou que ele estava correto. Diante disso, visitamos os diversos edifícios, encontrando outros vazamentos. O Setor de Serviços Gerais designou uma equipe especialmente para fazer os reparos na rede de água. Com a remoção dos vazamentos, o nível dos reservatórios passou a se manter estável e eu pensei, então, em atacar outro problema. Antônio Sérgio havia dito que, antes de perfurar o poço que “herdamos”, a Copasa havia perfurado um poço que se mostrou seco e se encontrava abandonado. Esse poço precisava ser tamponado para evitar que pudesse contaminar o lençol freático. Ocorre que o poço não ficava em terreno da Petrobras. Mesmo assim, dirigi-me à equipe de solda e expliquei que, embora o poço não estivesse em terreno da Petrobras, deveria ser feito seu tamponamento para evitar problemas com nossa água potável. Consegui convencê-los a ir comigo até o terreno vizinho para serrar a parte externa do poço e soldar uma chapa em sua abertura. Como o terreno estava desabitado, o trabalho foi feito sem maiores problemas. Nesse ínterim, fui comunicado que as tubulações de abastecimento dos bebedouros estavam limpas e que eles poderiam ser novamente utilizados. Telefonei para Rosângela dizendo que, finalmente, faríamos a reportagem que havíamos combinado. Sugeri que fosse batida uma foto de alguém utilizando o bebedouro e uma foto de um dos poços artesianos, com a notícia de que tínhamos água potável de qualidade na Regap. 49 - Um acidente de bicicleta Como o carro do setor nem sempre estava disponível, fazia meus deslocamentos em uma bicicleta. Ao chegar ao Sest, essa bicicleta passou a ser mais utilizada, visto que o setor não tinha um carro à disposição de seus funcionários. Certa vez, eu estava na bicicleta e ia fazer a curva em uma rua calçada com britas, quando surgiu um carro que me desviou a atenção por alguns instantes, o suficiente para que os pneus derrapassem nas britas e eu caísse com a mão sobre uma delas, que rasgou a carne, provocando hemorragia. No carro estava a colega Cláudia, da Comissão do Meio Ambiente, que me levou até o Ambulatório Médico. Dr. Julizar entendeu que os pontos teriam que ser dados lá mesmo, pois o sangue continuava a escorrer. Dr. Silvano foi encarregado desse trabalho. Ainda não estava concluído o procedimento, quando meu chefe de divisão, sem nenhuma cerimônia, adentrou a sala onde estava sendo feita a sutura. Sem sequer me perguntar como eu estava me sentindo, dirigiu-se ao Dr. Julizar para pressioná-lo a não me dar um único dia de licença. Disse-me, em seguida, que a refinaria estava para bater o recorde de dias sem acidentes do trabalho com perda de serviço e eu não iria querer impedir que isso acontecesse. Por isso, disse ele, eu não poderia me ausentar do serviço. Expliquei-lhe que estava fazendo um trabalho na bacia de neutralização e, por vezes, era necessário que eu descesse lá. Eu iria trabalhar, mas não poderia entrar na bacia para evitar contaminação da mão acidentada. Tais medidas restritivas caracterizariam o acidente de trabalho. Por isso, ele disse que eu deveria continuar com minhas atividades normais. No dia seguinte cedo, ele telefonou para o Geraldo para se certificar de que eu havia comparecido ao trabalho. Achei aquilo bastante ridículo. Havia pouco tempo, um colega fora demitido sob a acusação de ter trocado os pneus de seu carro por pneus de um carro da Petrobras. Se os chefes da Regap queriam se apropriar ilicitamente dos louros por um período sem acidente do trabalho, que na realidade não existiu, fizeram mal ao punir o funcionário que se apropriara ilicitamente de pneus usados. Dias depois, o Repórter Regap foi chamado para bater fotos dos setores para a comemoração do longo período sem acidentes do trabalho. Disse ao Geraldo que eu não deveria sair na foto, pois ainda estava com a mão enfaixada. 50 - Visitando a Fiat Automóveis Com a conclusão dos trabalhos relativos aos poços artesianos, passei a observar com mais atenção o efluente líquido da Regap. Eu havia assistido a uma palestra do superintendente em que ele manifestara a preocupação com a elevada concentração de amônia no efluente da refinaria. Procurei a Comissão do Meio Ambiente para me informar a respeito. Disseram-me que estava sendo providenciado o lançamento do esgoto sanitário na bacia de aeração norte (a bacia de montante) para que as bactérias oxidassem a amônia. Fui conhecer o sistema de tratamento de esgoto sanitário e vi que consistia, tão somente, de um biodigestor em que, periodicamente, o lodo era retirado e colocado em um leito de secagem. O tratamento era muito rudimentar, mas para o objetivo previsto, seria melhor que não houvesse tratamento algum, a não ser o tratamento preliminar, com grades e caixa de areia. De fato, ao passar pelo biodigestor, grande parte das bactérias eram eliminadas. Se o objetivo era que as bactérias do esgoto oxidassem a amônia, matá-las era uma verdadeira incoerência. Percebi, também, que era muito pequena a vazão efluente do biodigestor. Isso indicava que a tubulação de esgoto devia estar deteriorada com o uso e, por isso, havia infiltração de esgoto no solo. Para evitar tanto a perda de líquido como a contaminação do solo por esgoto não tratado, a rede de esgotos sanitários deveria ser substituída como o fora a rede de água potável. Ao se fazer a substituição da rede de esgoto, deveria ser feita a separação entre a água negra, aquela que sai dos vasos sanitários, e os demais efluentes sanitários, entre eles o efluente das caixas de gordura, com elevada concentração de detergentes, que são bactericidas. Para a bacia de aeração interessaria apenas a água negra. Quanto ao restante do esgoto, deveria continuar indo para o biodigestor após passar por grades e desarenador. Deveria ser construído um adensador para onde seria conduzido, periodicamente, o material depositado no fundo do biodigestor, onde seria feita a separação do material pastoso, que seria conduzido ao leito de secagem e, depois enterrado, e da parte líquida, que seria bombeada para o reservatório que abastecia a rede de incêndio. Levei essa ideia à Comissão do Meio Ambiente e lá fiquei sabendo que esse tipo de reúso da água já era feito pela nossa vizinha Fiat Automóveis. Mostrei o desejo de conhecer o tratamento feito pela montadora e pedi um contato. Por sorte, uma de nossas ex-estagiárias estava trabalhando na Fiat e intermediou um contato com o pessoal que trabalhava no Setor do Meio Ambiente da montadora, com quem marquei uma data para uma visita. Fiquei deslumbrado com o tratamento dado pela Fiat. Cerca de 95% de toda a água usada na montagem de veículos era tratada em um reator químico, enquanto o esgoto sanitário era tratado em um reator biológico. O efluente líquido da montadora era, tão somente, o rejeito da osmose reversa, por conter alta concentração salina. Lembrei-me da reunião com os chefes de departamento em que se discutia a possibilidade de se parar a refinaria porque a água da represa estava excessivamente salinizada. Imaginei que poderíamos aprender muito com nossos vizinhos e agendei uma palestra a ser proferida na refinaria. Dias depois, ligaram-me pedindo para remarcar a palestra, porque ela seria proferida pelo engenheiro que coordenava todo o sistema de reúso de água na Fiat. Percebi que essa palestra poderia ser um acontecimento na Regap. 51 - A experiência da Fiat com reúso de água Na véspera da palestra do engenheiro da Fiat, recebi um telefonema da sala dos chefes de divisão dizendo que a palestra deveria ser adiada, visto que o pessoal da Comissão do Meio Ambiente tinha uma atividade marcada para o dia seguinte e, sem a presença deles, disse o assessor, não havia sentido em se fazer a palestra. Pela entonação de sua voz, percebi que se tratava de um boicote à palestra. Não poderia, portanto, concordar. Tratava-se de uma oportunidade excelente, visto que o trabalho da Fiat com reúso de água já era citado como exemplo a ser seguido. Disse que a palestra havia sido remarcada devido à agenda do palestrante, mas que o pessoal da Comissão do Meio Ambiente poderia ficar tranquilo, visto que a palestra seria filmada. No dia seguinte, convidei meus antigos colegas do Setor de Acompanhamento de Processo e algumas outras pessoas e fomos para a palestra. A Assessoria de Comunicação filmou-a e me deu a fita, que nunca foi pedida para ser vista. A palestra foi muito interessante. Primeiro, versou sobre a questão de economia de água potável. Os banheiros deixaram de ter válvula e passaram a ter caixa de descarga e as torneiras passaram a ser acionadas por sensores. Quanto ao reúso da água, o sucesso era muito grande. Os efluentes dos dois reatores, que eu havia visto, se juntavam e recebiam uma desinfecção final. A água, assim tratada, ia para a linha de montagem. 52–Proposta de reúso de água na Regap Geralmente, quando saía de férias, fazia uma viagem, pois, ficando em Belo Horizonte, dificilmente me desligava do trabalho. Dias depois da palestra do engenheiro da Fiat, saí de férias, mas não tínhamos marcado uma viagem e me mantive na capital mineira. Durante meu tempo ocioso, fiquei imaginando como poderíamos reusar a água da Regap. Afinal, a refinaria captava água da represa de Ibirité, para onde encaminhava seu efluente, com alta concentração salina, o que fazia com que a represa ficasse muito salinizada na maior parte do ano. Assim, em longos períodos de estiagem, a refinaria sofria ameaça de paralisação de suas atividades por não conseguir remover apropriadamente os sais que ela mesma havia lançado na represa. Seria simples e muito mais objetivo reusar o efluente da Regap, evitando, dessa forma, salinizar a represa de Ibirité, que havia sido construída pela própria Petrobras. Seguindo a orientação do palestrante da Fiat, que havia recomendado a economia de água, a primeira medida a ser tomada seria parar o vazamento crônico na estação de tratamento de água. Para que a obra fosse feita sem parar a estação, seria necessário um reservatório que recebesse a água do vazamento, pois esta passava pelo mesmo canal que recolhia a água de lavagem de filtros. Esse reservatório deveria ter uma saída de fundo para descartar a água usada na lavagem de filtros e uma tubulação de sucção para levar a água do vazamento para uma bomba, que a recalcaria para os filtros. Sempre que um filtro fosse ser lavado, seria aberta a comporta, que seria mantida aberta até que toda a água de lavagem tivesse sido esgotada. A água de lavagem de filtro seria conduzida ao tratamento preliminar a montante do biodigestor. Só depois que toda a água de lavagem fosse esgotada, a comporta seria fechada e o reservatório voltaria a se encher. Além do efluente da lavagem de filtros, o biodigestor receberia, também, o efluente da bacia de neutralização e a purga da então lagoa de polimento (da qual trataremos adiante). Quanto ao esgoto sanitário, somente a água cinza, proveniente de lavatórios e de chuveiros, e o efluente das caixas de gordura seriam conduzidos ao biodigestor, sempre passando pelo tratamento preliminar, constituído de grade e de caixa de areia. O efluente do biodigestor seria conduzido a um tanque de aeração, de modo a obter a concentração de oxigênio dissolvido exigida pelo Conama para descarte de efluente no ribeirão Sarzedo. Depois de aerado, o efluente do biodigestor seria elevado ao reservatório de água de incêndio e o excesso, descartado para o ribeirão Sarzedo, a jusante da represa de Ibirité. O tratamento no biodigestor seria suficiente para colocar seu efluente dentro das exigências da norma para ser descartado no ribeirão. Um monitoramento permanente desse efluente faria com que, em caso de eventual discordância com o padrão Conama, fossem feitos os ajustes necessários. O lançamento do efluente do biodigestor em água corrente, a jusante da lagoa, evitaria os problemas de salinização excessiva da represa de Ibirité. Feita essa modificação, não haveria necessidade de se captar água da represa para o reservatório de incêndio. Entretanto, a tubulação de captação seria mantida para o caso de um sinistro de maiores proporções. Outra economia de água seria o descarte da torre de resfriamento. Para que a água das caldeiras seja mantida a um nível de salinidade aceitável, torna-se necessária a purga, um descarte contínuo de água. Esse descarte contém a mesma concentração salina da água da torre de resfriamento e, portanto, pode ser reaproveitado, devendo ser lançado de volta à estação de tratamento de água. Essa seria a primeira etapa do reúso da água. A oura etapa, mais importante, seria a reutilização do efluente da refinaria como água industrial. A temperatura elevada da água, ao chegar à bacia de aeração de montante, impedia a ação das bactérias. Tornava-se necessário reduzir essa temperatura e a forma mais indicada seria sua mistura com água fria. Para isso, o córrego Pintado se apresentava como a solução mais eficaz: tinha vazão razoável, alta concentração de matéria orgânica e, por ter baixa concentração salina, poderia diluir os sais presentes nas bacias de aeração. No passado, o córrego Pintado havia sido desviado para que suas águas não se incorporassem à bacia de águas contaminadas, para não mascarar a composição do efluente da Regap. Como estávamos propondo a reutilização do efluente, essa premissa deixaria de valer e, ao invés de o córrego Pintado despejar na represa, suas águas seriam utilizadas na própria refinaria. A preocupação manifestada pelo superintendente era com o excesso de amônia, mas devia ser considerado que a oxidação da amônia resulta em nitrato, o qual, juntamente com o fosfato, são os alimentos preferidos pelas algas. Assim, não devíamos nos preocupar apenas com a amônia, mas, também, com o nitrato. Para eliminarmos simultaneamente a amônia e o nitrato, poderíamos fazer uma recirculação interna nas bacias. Para eliminação da amônia e do nitrato, as águas do córrego Pintado, após passarem por tratamento preliminar, seriam lançadas na entrada da bacia de aeração de montante, causando os efeitos benéficos de diluição salina e de diminuição da temperatura da água. Nessa parte da bacia, não haveria aeradores, de modo que as bactérias facultativas, não dispondo de oxigênio dissolvido para oxidarem a matéria orgânica, teriam que usar o oxigênio molecular. O nitrato é uma fonte importante de oxigênio, pois cada uma de suas moléculas contém três átomos de oxigênio. As bactérias utilizariam o nitrato contido no efluente da Regap, o nitrato dissolvido nas águas do córrego Pintado e o nitrato oriundo da recirculação interna na bacia. Na segunda metade da bacia de aeração de montante, haveria aeradores, fornecendo às bactérias o oxigênio dissolvido suficiente para oxidarem a amônia dissolvida a nitrato. Para evitar que passasse para a bacia de aeração de jusante uma elevada concentração de nitrato, haveria a recirculação interna de uma vazão pelo menos igual ao dobro da vazão de entrada de água. Desse modo, o nitrato ficaria disponibilizado às bactérias facultativas na parte da bacia com pouco ou nenhum oxigênio dissolvido. O efluente dos vasos sanitários, conhecido como água negra, após passar por tratamento preliminar, seria lançado na entrada da bacia de jusante, na parte onde não haveria aeradores. Desse modo, as bactérias facultativas usariam o nitrato remanescente transferido da bacia anterior e mais o nitrato oriundo da recirculação interna na bacia de jusante para oxidarem a matéria orgânica tanto da água negra como a remanescente da bacia de montante. Como a vazão de água negra seria muito inferior à vazão do córrego Pintado, os aeradores seriam distribuídos nessa bacia ao longo das duas terças partes de jusante, propiciando a oxidação de toda a amônia remanescente e mais a contida na água negra. A recirculação interna na bacia de jusante deveria ser menor, calculada em função da obtenção de uma concentração final de amônia não superior a 1,5 mg/L e a uma concentração de nitrato inferior a 10 mg/L, que são os padrões mais rigorosos determinados pelo Ministério da Saúde para concentração de amônia e de nitrato. Há que se considerar a remoção da borra de óleo no fundo das lagoas. Para isso, seria conveniente inserir um raspador mecânico que funcionasse ininterruptamente na parte sem aeradores das bacias, conduzindo o material acumulado no fundo das lagoas para a unidade de tratamento de borra. Quando necessário, os aeradores seriam desligados para que fosse feita a raspagem também na parte aerada das lagoas. O efluente das bacias de aeração era levado à lagoa de polimento, onde se podia observar elevada concentração de óleo na superfície. Para reutilizar a água, seria necessário remover esse óleo. Para isso, a lagoa de polimento seria transformada em um flotador, em que tanto o óleo superficial como a borra de fundo seriam removidos e conduzidos à unidade de tratamento de borra. O sistema de tratamento de efluente já dispunha de um flotador, localizado a montante das lagoas de aeração, em que a água entrava a uma temperatura elevada e, talvez por isso, tinha eficiência relativamente baixa. Com um flotador funcionando a jusante das lagoas de aeração, com menor concentração de óleo, com água a temperatura próxima da ambiente e com área bem superior à do flotador existente, seria possível esperar uma eficiência bem maior. O efluente da lagoa de polimento, transformada em flotador, seria conduzido à estação de tratamento de água. Para evitar que as sucessivas recirculações do efluente provoquem aumento progressivo na concentração salina, será importante que a quantidade de sais inseridos no efluente seja removida. Desse modo, seria feita uma purga constante no efluente da lagoa de polimento, transformada em flotador, em direção ao biodigestor, passando pelo tratamento preliminar. A vazão de purga seria variável, de modo a manter a salinidade do efluente dessa lagoa dentro de limites pré-estabelecidos. Quando a vazão efluente desse flotador não fosse suficiente para a demanda de água industrial da refinaria, haveria captação de vazão da represa de Ibirité para se fazer a compensação, a qual seria lançada na parte sem aeração da bacia de aeração de montante. O grande número de prédios da Regap se apresentava como o ideal para usarmos água de chuva. Deveríamos, portanto, fazer um grande reservatório subterrâneo para reter a água precipitada, de modo a poder utilizá-la como água desmineralizada durante os períodos de estiagem prolongada. Juntamente com a água de chuva, seria drenado o condensado dos aparelhos de ar condicionado, também isentos de salinidade. Ressalte-se que a represa de Ibirité iria se dessalinizando progressivamente e, quando atingisse nível salino aceitável, durante os períodos de estiagem, seria feita a captação de suas águas não apenas para completar a vazão necessária, mas, também, para reduzir a salinidade da água industrial da Regap. Com a raspagem permanente do fundo das lagoas de aeração e do novo flotador, seria necessário um destino seguro para a borra de petróleo, pois, em caso contrário, o “land farming” iria, aos poucos, se tornando um ponto de poluição do lençol freático. A borra digerida contém concentração elevada de metais pesados e, portanto, não pode ser, simplesmente, enterrada. Minha sugestão era de que, após sua completa digestão, fosse removida e enviada a parques de reflorestamento, onde pudesse atuar como adubo orgânico. 53 - Descubro a causa de antigo problema da Regap Água mole em pedra dura Tanto bate até que fura. Eu estava elaborando esse estudo quando me ocorreu que deveria ir à Regap analisar cada passo. Como eu estava de férias, seria estranho chegar sozinho à refinaria, colocar o uniforme e ir à área industrial. Lembrei-me, então, da Professora Rosa Alice, que morava próximo a mim. Urbanista e sanitarista, ela estava aposentada e, como era uma pessoa muito dinâmica, certamente gostaria de ir comigo à Regap para analisar o estudo que eu estava fazendo. Quando chegamos à refinaria, ela pediu para ir ao arquivo verificar as plantas da região onde eu pretendia fazer o reúso da água. Em dado momento, ela me perguntou se eu sabia que o córrego do Patrimônio passava por baixo da bacia de águas contaminadas. Eu não sabia e duvido que alguém mais da refinaria soubesse. De fato, após a construção da bacia de águas contaminadas, ao final da década de 1980, percebeu-se que estava entrando água continuamente na bacia, antes mesmo de ser colocada em operação. Concluiu-se que se tratava de água do lençol freático, que estava passando por alguma fenda na bacia. Se havia fenda, haveria uma flecha na laje de fundo e fez-se o levantamento topográfico de toda a laje, constatando-se que determinado ponto estava com uma altura de mais de 1 metro em relação à cota prevista para o fundo da laje. Tratava-se de uma situação totalmente inusitada. Uma flecha de tal magnitude feita em uma laje armada não era algo esperado. Na realidade, era algo inteiramente inédito. Enquanto os engenheiros discutiam o que poderia ter causado tal flecha, a Comissão do Meio Ambiente se preocupava com a contaminação do lençol freático, pois, como havia um fluxo de água para o interior da bacia, poderia haver um fluxo em sentido contrário, levando a borra acumulada no fundo para o lençol freático. A bacia de águas contaminadas entrou em operação sem se saber qual era a causa de uma subpressão tão alta que tivesse provocado a elevação de um ponto da bacia a mais de um metro de altura. Com a descoberta da Professora Rosa Alice, cheguei à seguinte conclusão: Quando foi feita a drenagem do lençol freático para execução da laje de fundo da bacia de águas contaminadas, foi feita, também, a drenagem do córrego do Patrimônio. Depois de concluída a bacia e desligada a bomba de drenagem do lençol, o córrego não teve mais como voltar ao seu leito natural, tendo a laje de fundo funcionado como uma barragem, que fez com que o córrego alagasse uma das faces da bacia. A situação deve ter perdurado até que a pressão provocada por esse alagamento rompesse a laje de fundo. Depois desse rompimento, o fluxo de água, ao entrar para o interior da bacia, foi abrindo passagem na laje, até elevar a flecha a mais de um metro. Essa descoberta trouxe uma tranquilidade muito grande. O fluxo se fazia de fora para dentro e, portanto, não havia risco de contaminação do lençol freático, que somente poderia ocorrer se o córrego secasse. Por outro lado, a entrada de água permanentemente na bacia tinha a dupla vantagem de reduzir tanto a concentração de sais como a temperatura da água. Ressalte-se que o reparo da laje de fundo da bacia de águas contaminadas somente poderia ser feito com o desvio definitivo das águas do córrego do Patrimônio, o qual poderia ser feito para o leito canalizado do córrego Pintado a jusante da bacia. 54 – Limpeza da bacia de aeração sul De volta das férias, concluí o estudo do reúso da água da Regap e fiz sua divulgação. Sabendo que um repórter da Revista Petrobras estava na refinaria, procurei encontrar-me com ele e lhe sugeri fizesse uma matéria sobre os poços artesianos com um parágrafo final sobre o reúso da água. A matéria foi feita e publicada na coluna “Nossa gente”, com o título “A solução no fundo do poço”, que recebeu o seguinte parágrafo final: “Agora que o problema da água potável da Regap está resolvido, Paulo está pensando em estudar, também, a questão da água de refino. Segundo ele, reciclar o efluente da refinaria pode ser mais viável que utilizar água da represa de Ibirité, sobre a qual a Regap não tem controle.” O estudo de reúso do efluente da refinaria me fez ir repetidas vezes à área das bacias de aeração. Nessas visitas, percebi que ambas estavam totalmente tomadas de óleo. O ideal seria que tivessem um raspador mecânico que pudesse ser acionado a qualquer momento, bastando desligarem-se os aeradores. Como esse não existia, teria que ser paralisada uma das bacias para se fazer a limpeza e, só depois que ela entrasse em operação, seria feita a limpeza da outra bacia. Conversei com Geraldo sobre a precariedade da situação das bacias de aeração e ele me disse que estava na hora de providenciarmos a limpeza da bacia de aeração sul (a de jusante) e que eu poderia fazer a especificação para ser contratada uma empresa especializada. Alertou-me, porém, que não permitisse fosse feita a limpeza manual, expondo os empregados da empreiteira à respiração dos gases emanados pela borra depositada no fundo. Pus-me, então, a fazer a especificação técnica para a licitação. Entretanto, tanto a divulgação do meu trabalho como a matéria intitulada “A solução no fundo do poço”, inserida na coluna “Nossa gente” da Revista Petrobras teve repercussão negativa entre os chefes de divisão. Ninguém se mostrou interessado na proposta e Geraldo foi alertado de que isso poderia levar à minha demissão. 55 – Onde há fumaça, há fogo A demissão ocorreu antes mesmo de eu completar a especificação para limpeza da bacia de aeração sul. Fui chamado à sala dos chefes de divisão e comunicado que estava demitido. Recebi dois papéis para que eu os assinasse, o que, evidentemente, não o fiz, guardando as cópias. Lendo tais papéis, verifiquei seu conteúdo: um deles era cópia de uma portaria do superintendente, datada de dois dias antes, em que era nomeada uma comissão para analisar minha possível demissão; o outro era a comunicação de que eu estava demitido. Voltei imediatamente a minha sala e perguntei ao Geraldo se ele tinha alguma coisa a ver com aquilo. Ele me disse que só foi comunicado da demissão na véspera pelo colega Guerra. Lendo, então, os nomes dos membros da comissão, vi que o Guerra fazia parte e fui saber dele o que havia-se passado. Ele me disse que um dos chefes de divisão lhe apresentara avaliações que eu teria tido ao longo dos anos (avaliações essas as quais eu não conhecia) dizendo que haviam sido ruins e, portanto, ele votou favoravelmente à minha demissão. Achei estranho uma comissão ser criada e, em dois dias, ter dado o veredicto de algo tão importante como a demissão de um funcionário da companhia. Mais estranho é que a comissão sequer me ouviu, embora quisessem que eu assinasse um documento de que eu teria sido convocado para reunião da comissão. Lembrei-me de que, recentemente, outra comissão havia sido criada com o fim de me levar ao pagamento da bateria de uma empilhadeira e que, após receber minha defesa, acabou por tecer elogios tanto a mim como ao operador dessa empilhadeira. Com certeza, não queriam correr risco de que pudesse acontecer o mesmo, apesar de a comissão ter sido constituída de dois chefes de divisão e de um colega assustado. Fui ao sindicato perguntar se uma demissão poderia ser feita de forma tão sumária como havia sido feita. Disseram-me que, no último dissídio coletivo, fora acordado que demissões somente poderiam ocorrer depois de criada uma comissão em que pelo menos um membro não deveria ser chefe de setor ou de divisão e que essa comissão deveria convocar o interessado para se inteirar do processo e conceder-lhe ampla defesa, não podendo o parecer da comissão ser emitido em menos de 48 horas. Percebi, então, que resolveram seguir as formalidades, pulando aquela em que eu deveria ter sido convocado pela comissão e que me seria garantida ampla defesa. Diante disso, resolvi entrar com processo na Justiça do Trabalho para reverter a demissão. Entendi que, por não ter sido convocado pela comissão, o ato estava automaticamente nulo. Qual não foi a minha surpresa quando vi no processo a alegação do advogado de que eu havia me recusado a receber a convocação da comissão e, por isso, minha assinatura fora suprida por outra pessoa? Teria eu provocado tanto ódio para que as pessoas mentissem dessa forma em um processo na Justiça do Trabalho? Como a Petrobras poderia reclamar de que ex-funcionários também mentissem nos tribunais para arrancar-lhe dinheiro nos processos trabalhistas? Foi quando me ocorreu que, por ter sido acidentado, possivelmente eu era estável, como havia acontecido após minha eleição para a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Voltei ao sindicato e perguntei se, embora o acidente de bicicleta não tivesse sido registrado, caso eu provasse sua ocorrência, isso me daria estabilidade. O advogado não soube responder, mas mostrou-me o acordo com a companhia, o qual exigia que qualquer demissão fosse precedida de pedido por parte do chefe imediato. Estava aí um detalhe que eu não havia colocado em minha defesa. Quem deveria iniciar o processo seria o Geraldo, que era meu chefe imediato. Como ele havia garantido que não sabia de nada até a véspera da demissão, estava aí um detalhe que não poderia ser desconhecido pela Justiça do Trabalho. Diante disso, preparei um texto, que inseri no processo, citando ambos: a inexistência de pedido de demissão por meu chefe imediato e o acidente do trabalho que a refinaria escondeu. A resposta da empresa foi decepcionante. O advogado requereu a retirada de minha réplica dos autos, dizendo que não era prevista na CLT. Além disso, apresentou documento, assinado pelo Dr. Julizar, dizendo que eu estava apto a trabalhar e outro documento, assinado pelo Geraldo, solicitando minha demissão. Com relação a esse último, o advogado dizia que não o havia anexado ao processo porque o supunha desnecessário. Será que a Petrobras sabia que a direção de uma de suas refinarias recorria a expediente dessa natureza para justificar uma demissão programada havia tanto tempo? Pior: embora a juíza não tenha mandado retirar minhas alegações do processo, acreditou no que foi dito pelo advogado da empresa e deu ganho de causa à Petrobras. Recorremos ao TRT e uma de suas turmas manteve a decisão. 56–“Perderam o poço 2!” Conversei com meu advogado se seria conveniente entrar com novo recurso desmentindo as inverdades ditas no processo. Ele disse, no entanto, que um novo recurso somente poderia ser feito ao TST e que era grande a probabilidade de ser mantida a decisão do TRT. Diante disso, resolvi desistir do processo, que transitou em julgado. Afinal, ele estava me tomando muito tempo e eu precisava estudar para concurso. Desliguei-me, portanto da Petrobras, com a sensação do dever cumprido. Quando cheguei à Regap, não se sabia, sequer, quais eram seus limites territoriais. Ao sair, todo o perímetro do território regapiano estava devidamente demarcado. A casa de controle não era pressurizada. Participei de uma concorrência para escolher uma empresa que efetuasse a obra e a acompanhei desde o início até o final. Quando estava chovendo, os funcionários da Petrobras se molhavam ao sair do ônibus. Isso acontecia com frequência, pois o clima em Belo Horizonte nem sempre se iguala ao da refinaria. Fiz uma concorrência para construir abrigos nos pontos de parada do ônibus. A empresa que venceu não era de Belo Horizonte e eu tive que mediar um acordo entre a empreiteira e a concessionária do restaurante para que seus funcionários recebessem quentinha todos os dias. A Regap era acusada de poluir o ar atmosférico e não sabíamos até que ponto isso era verdade. Pelo sentido dos ventos dominantes, verificou-se que a localização adequada para uma estação de monitoramento do ar seria no DNER e foram feitas gestões junto àquele órgão nesse sentido. Ocorre que o DNER não tinha planta das tubulações no subsolo e eu tive que ocorrer ao Fogaréu, um antigo funcionário da empresa, que me indicou onde poderíamos e onde não poderíamos fazer a fundação para a colocação da estação. A Assessoria de Comunicação havia solicitado um equipamento de ar condicionado. Quando promovi a licitação, venceu uma empresa dirigida por dois rapazes completamente desconhecidos no mercado. Eles fizeram um trabalho tão bem feito que o superintendente pediu que fosse instalado equipamento semelhante em sua sala. Organizei nova licitação e eles venceram, executando o sistema de ar condicionado na sala do superintendente. Hoje, sua empresa é uma das maiores no ramo de ar condicionado em todo o Brasil. Tive também problemas de difícil solução. A empresa que fornecia mão de obra para projetistas e desenhistas atrasava o pagamento e os funcionários fizeram greve. José, então chefe do Setor de Projetos, rescindiu o contrato e pediu-me que fizesse licitação para um novo contrato e o fiscalizasse. A empresa vencedora havia colocado na proposta que a hora extra tinha preço inferior à hora normal. Ficou evidente que ela estava fornecendo indicação de que não iria pagar os encargos sociais referentes às horas extras. Fiz, então, um regime de compensações, quando ainda não se falava em banco de horas, evitando que houvesse hora extra e, por isso, jamais fomos acusados de conivência com burla de encargos sociais. De outra feita, recebi um telefonema do Fábio, sócio da empresa que estava realizando um trabalho na área industrial. Minha participação no processo havia sido apenas a de organizar e dirigir a concorrência. Por isso, fiquei surpreso quando ele me telefonou perguntando se poderia me entregar um presente em meu apartamento. Respondi-lhe que iria ver com minha esposa se ela não tinha acertado um programa para aquela noite e que lhe retornaria a ligação. Minha esposa disse que recusar um presente é sempre indelicado. Analisando o valor do contrato, concluí que esse presente não poderia ser de grande valor e disse ao Fábio que eu o esperava naquela noite. Eu estava certo: o presente não tinha grande valor. Entretanto, não foi para me dar uma caneta e uma agenda que ele fora a meu apartamento. Queria contar que havia sofrido uma tentativa de extorsão. É evidente que tal denúncia deveria ser feita ao Ministério Público e não seria eu quem a faria. Tempos depois, encontrei-me com o colega Ronaldo no Palácio das Artes e ele me contou que havia percebido irregularidades em contratos e, como fizera denúncia ao Ministério Público, foi, em consequência, demitido da Petrobras. Um dos trabalhos mais difíceis que tive foi quando me responsabilizei pela contratação de estagiários. Havia a recomendação para que fosse priorizada a indicação feita por funcionários da Petrobras e estas nem sempre correspondiam aos melhores candidatos. Um trabalho interessante que me demandou muito tempo foi a reforma do restaurante. O antigo restaurante tinha um critério de divisão em alas: os frequentadores de uma ala comiam em pratos a um preço mais elevado e os da outra comiam em bandejão, o que, na prática, era uma separação entre funcionários de nível superior e funcionários de nível médio. Na reforma, isso foi abolido. Em ambas as alas, a comida era posta no prato pelos funcionários da concessionária. A ideia era transformar o sistema em “self service”. Havia inúmeras dúvidas sobre a conveniência de tal modificação. Afinal, se a comida era servida por funcionários com luvas, havia maior garantia de higiene. Diante disso, formamos uma comissão e nos dirigimos a Itabira, para conhecer o restaurante da Vale do Rio Doce, que já adotava critério semelhante. Nenhum trabalho me deu tanta satisfação, no entanto, como a separação entre o sistema de água industrial e o sistema de água potável, que passou a ser feito por meio de poços artesianos. Muito tempo depois da demissão, resolvi telefonar para o Antônio Sérgio. Afinal, ele havia participado comigo da saga dos poços artesianos quase desde o início. Queria perguntar-lhe se sabia que eu não estava mais na Petrobras. Ele me respondeu que já sabia da notícia. No meio da conversa, disse: - Perderam o poço 2! Recebi uma das notícias mais tristes que poderia receber. O poço 2, aquele que havia permitido extrair vazão de 25 m3/h, estava perdido. Não houve comissão de sindicância para apurar por que um equipamento caiu no poço e o obstruiu definitivamente. Lembrei-me do trabalho que esse poço havia dado: abandonei o resultado dado pela geofísica após o fracasso do poço anterior e pedi ao Antônio Sérgio que o locasse; precisei exigir com firmeza que a empresa perfuradora do poço fizesse um acesso específico para ele; tomei grande susto quando a análise de sua água acusou tantas colônias de coliformes fecais; não aprovei o pedido da empresa de bombas submersíveis para reduzir o diâmetro de sua tubulação no interior do poço. Após todo esse trabalho, o poço estava perdido! 57 –Continua o problema da represa de Ibirité A vida me direcionou para outros caminhos. Vez por outra, encontrava-me com antigos colegas e perguntava como estava o sistema de água potável da Regap. Sequer sabiam se a água ainda era fornecida por poços artesianos. Somente tive certeza disso quando vi na Internet um texto da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), datado de 2010,denominado “Moradores lutam por obras de saneamento e pela revitalização da lagoa de Ibirité”, citando como fonte de referência, entre outros, texto retirado dos anais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais: Criada em 1968, como parte do projeto de instalação da Refinaria Gabriel Passos (REGAP) da Petrobras, a Lagoa de Ibirité é característica desse processo. Originalmente parte da bacia Ribeirão Sarzedo, localizada na bacia do rio Paraopeba (um dos principais afluentes do rio São Francisco), a Lagoa de Ibirité foi criada a partir do represamento de parte do curso deste ribeirão, e passou a constituir uma das principais fontes de água para a refinaria. A REGAP possui capacidade para refinar até 150 barris de petróleo por dia, os quais geram subprodutos como gasolina, óleo diesel, querosene de aviação, GLP, aguarrás, asfaltos, coque e enxofre. Instalada em 1962, iniciou suas operações seis anos depois, e sofreria ampliações em 1982 e 1994. Durante mais de 30 anos, a REGAP despejou efluentes líquidos na lagoa, através do córrego Pintado, sem maiores preocupações ambientais; essa posição começou a mudar na última década, quando o aumento da preocupação com a qualidade ambiental por parte da população em geral, e a evolução da legislação ambiental brasileira, levaram a empresa a instituir um programa de monitoramento da qualidade da água e estudar opções de reuso para suas águas industriais. Entretanto, décadas de uso indiscriminado, a ocupação desordenada de seu entorno, a falta de obras de engenharia ambiental necessárias para conter seu assoreamento, e o lançamento de esgoto não tratado contribuíram para minar qualquer possibilidade de recuperação da lagoa em curto prazo. Um estudo realizado por um grupo de consultoria liderado por Fernando Jardim, a serviço da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), identificou, através de bioensaios, que a lagoa conta com colônias de algas das espécies M. aeruginosa e M. flosaquae - produtoras de hepatotoxinas, que podem levar a sérias complicações no fígado humano. Por esse motivo, a empresa elevou o nível de alerta da lagoa para o nível 2, com a realização de monitoramento semanal e substituição do fornecimento de água potável para refinaria por água de poço (a água produzida pela ETA passou a ser utilizada somente para fins industriais). Lendo o texto, concluí que, se tivessem sido seguidas minhas sugestões de reúso do efluente líquido da Regap, talvez hoje a represa de Ibirité não estivesse na condição em que se encontra.